Palhares-Alves, Hamer Nastasy. Dependência Química Entre Médicos: A experiência de um Serviço Pioneiro no Brasil – Rede de Apoio a Médicos. Características sócio-demográficas, padrões de consumo, comorbidades e repercussões do uso de álcool e outras drogas entre médicos. Tese (Doutorado) – Universidade Federal de São Paulo. Escola Paulista de Medicina. Programa de Pós-Graduação em Psiquiatria. São Paulo, 2007. xv, 206 folhas.

Resumo:

Introdução: Médicos apresentam peculiaridades sócio-ocupacionais e de personalidade que os expõem a situações de risco para transtornos mentais, burnout e uso de substâncias. Objetivo: Descrever características sóciodemográficas,
razões para busca de auxílio terapêutico, diagnóstico do uso problemático de substâncias, comorbidades psiquiátricas e repercussões do consumo em amostra clínica em um serviço específico para médicos no Brasil. Desenho: Estudo de corte transversal. Procedimentos: Um estudo piloto foi realizado para investigar o perfil de médicos dependentes químicos em tratamento no Brasil, (N=198). Os resultados deste estudo fomentaram a necessidade de constituição de um serviço para esta clientela. A partir do funcionamento desta Rede de Apoio a Médicos foi investigado, em entrevista semi-estruturada, o perfil sócio-demográrico, comorbidades psiquiátricas e diagnóstico do uso de substâncias (Checklist de Sintomas para a CID-10 e Malasch Burnout Inventory). Auto-medicação foi anotada quando esta contribuiu para a gênese do consumo de substâncias. Repercussões do uso
de foram anotadas de modo dicotômico (sim/não). Resultados: Trezentos e
sessenta e cinco médicos foram atendidos em um período de sete anos. Destes, 319 (87,4%) eram homens, idade média de 38,6 ± 10,5 anos. O intervalo médio entre a identificação do problema e a busca de tratamento foi de 5,8 ± 7,3 anos. Comorbidade psiquiátrica esteve presente em 188 casos 51,5%). O álcool foi a droga mais consumida, sendo responsável pelo início de consumo problemático de substâncias na maioria dos casos. Observamos diferentes perfis entre os blocos de especialidades: as especialidades clínicas iniciaram a carreira de uso problemático predominantemente com o álcool, as especialidades cirúrgicas com álcool ou drogas de rua e anestesiologia, com drogas de prescrição (p<0,001). A análise através do processo de árvores de classificação corroborou os achados de diferentes padrões entre os blocos de especialidades em relação ao início do consumo de substâncias (p<0,001) e ao padrão atual de consumo (p=0,021). As mulheres apresentaram problemas
mais frequentemente com benzodiazepínicos e anfetaminas e também buscaram auxílio mais precocemente. A busca de auxílio ocorreu por pressão xiv da família (44,1%), por pressão de colegas e Conselho Regional de Medicina (18,1%) e voluntariamente (37,8%). O tempo decorrido entre o reconhecimento de problemas e a busca de auxílio foi compatível com a literatura internacional (5,83 anos ± 7,31). A especialidade de anestesiologia mostrou-se hiperrepresentada em nossa amostra, e apresentou características peculiares em relação ao tipo de droga consumida, à forma de busca de auxílio terapêutico e ao início do consumo de drogas, sendo que este se deu principalmente por meio de drogas de prescrição (benzodiazepínicos e opióides). Conclusões: Ponderamos que a amostra analisada apresenta um perfil psicopatológico e de comorbidades importante, com repercussões do consumo em diversas áreas da vida (familiares, profissionais e saúde mental). A maior prevalência de uso de substâncias cujo acesso é facilitado pela profissão foi notada, sendo menor para os clínicos, intermediária para os cirurgiões e maior para os anestesistas e endoscopistas. Tais pontos sugerem a hipótese de fatores ambientais como propiciadores do início (e da manutenção) do consumo destas drogas. Por fim, os autores relatam a experiência e os desafios de coordenar um serviço de tal natureza e fazem recomendações sobre o manejo da dependência química
entre médicos.

Para entrar em contato com Hammer: hamerpalhares@yahoo.com.br

1 Comment

  1. Ieronimus says:

    Moral da estória: médicos também são gente!
    Um curso de medicina não confere imunidade aos conflitos e desejos de escape ou experiências várias. Que bom pesquisas assim. Professores, padres, pastores, ministros do STF, será que essas classes conhecem benzodiazepínicos, pra não dizer que não falamos das flores?