Publicado na Folha de São Paulo.

O chá da ayahuasca usado em rituais pode ser “tombado’; Folha publica relato sobre o uso místico dele no Acre

“ESPERO QUE NÓS possamos celebrar em breve o registro da ayahuasca como patrimônio cultural da nação brasileira”, disse o ministro da Cultura, Gilberto Gil, em discurso na última quinta-feira, durante cerimônia realizada no Centro de Iluminação Cristã Luz Universal, também chamado de Alto Santo, em Rio Branco (AC). Abaixo, repórter-fotográfico da Folha conta como foram os 15 dias que passou no vale do Juruá, no Acre, onde o Santo Daime nasceu. Lá, comunidade que usa o chá alucinógeno ayahuasca em celebrações místicas recebe brasileiros e estrangeiros interessados em aprender a religião daimista.

ANTONIO GAUDERIO
REPÓRTER-FOTOGRÁFICO http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff0505200817.htm

A ayahuasca pode ser o próximo bem imaterial a ser tombado pelo Ministério da Cultura, categoria que hoje inclui o samba de roda do Recôncavo Baiano, o ofício das baianas do acarajé e o tambor de crioula do Maranhão -aguardam registro o modo artesanal de fazer queijo de minas e a capoeira.

Se o Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) aprovar o “tombamento” da ayahuasca, os rituais relacionados ao consumo da substância passarão a receber apoio do ministério para a sua preservação.

No Brasil, o uso místico do chá de ayahuasca é feito por algumas comunidades religiosas. Entre elas, está a que visitei, no vale do Juruá, no Acre (a 630 km de Rio Branco), na divisa com o Peru, onde nasceu o Santo Daime. Estive lá em fevereiro, para acompanhar a colheita do cipó e o preparo do chá alucinógeno, e participei do ritual religioso. Ao todo, passei 15 dias na região.

A Fundação Livre para o Estudo da Cultura da Ayahuasca da igreja Flor da Jurema recebe visitantes brasileiros e estrangeiros que queiram conhecer a prática da religião daimista desde o processo de feitura do chá, a vacina do sapo kambô e os usos do rapé e do colírio sananga. Para isso, o visitante deve levar apenas lanterna e repelente, além de desembolsar, no mínimo, US$ 1.000 (R$ 1.650). Inclui hospedagem e alimentação em pousada sem energia elétrica e com redes para dormir na beira do rio onde se toma banho. E o daime, é claro.

Davi Nunes de Paula, 33, foi quem construiu a igreja Flor de Jurema. Filho de seringueiro, curso primário incompleto e ativista ambiental, Nunes de Paula é casado com Fabiana Piedade Rabelo, 26, paulista, engenheira de produção industrial. A festa de casamento foi no restaurante Leopolldina, localizado no primeiro andar da Villa Daslu -custou R$ 30 mil. Presente do sogro.

Durante todo o processo do feitio do chá, que dura 15 dias, o visitante pode meditar ou participar do trabalho, sempre bebendo o daime. “Bebam à vontade, aproveitem que vocês estão na fonte e quem quiser levar ou receber no seu país a gente manda, respeitando a legislação local”, diz Mirim, Antonio Altamiro Rosa Parente, 59, o alquimista da igreja, responsável pela feitura do chá nos dez diferentes graus de concentração para o consumo interno e para exportação.

Mirim, que parece não gostar de falar sobre a idéia de lucro com a bebida sagrada, foge do assunto quantidade produzida, preço e destino. Os trabalhadores, todos daimistas, ganham a ajuda de custo de R$ 30 por dia, mais alimentação e alojamento e, evidentemente, daime.

Tomei a bebida amarga e enjoativa logo ao chegar à Flor da Jurema. Nos três primeiros dias, porém, só senti enjôo.

Fui para a mata colher o cipó e lá experimentei o rapé, outra prática que os caboclos aprenderam com os índios. É usado para limpar a mente. Sem nunca ter fumado na vida, permiti que me soprassem no nariz pó de tabaco com folha de alfavaca, casca de jatobá e de canela da mata, folha de sansara, entre outras plantas medicinais.

Foi a experiência mais próxima da morte de todas que conheci. Vi a escuridão mais profunda, densa e concreta. Minhas pernas não agüentavam o peso do corpo e tive de me sentar de cabeça baixa, com os cotovelos nos joelhos.

Fiquei assim por uns dois minutos e voltei a respirar ouvindo o canto de um hino do Santo Daime entoado pelo caboclo. “(…) Eu vivo na floresta, ela me pertence.”

Vomitei, espirrei, tossi e babei. Tudo ao mesmo tempo. Pela hora seguinte caminhei cambaleando e me atolando nas poças de lama do chão, me enroscando em cipós e me cortando nas folhas de tiririca.

No dia seguinte, experimentei a sananga. Indígena, é um colírio feito da batata de um arbusto chamado sananga. Quando a gotinha do caldo branco caiu no meu olho, pareceu que o globo ocular ia sair fora do crânio, ardência infernal. Ao abrir os olhos, porém, as cores estavam vivíssimas e o foco era mais do que nítido. E nada do “barato” do daime.

Aí foi a vez de tomar a vacina do sapo kambô. Atribuem-lhe propriedades mágicas e terapêuticas: quem passa por ela, desenvolveria o poder de atrair caça e mulheres, seria curado de todas as doenças físicas e espirituais, se salvaria de picadas de cobra, além de ficar mais forte. Apesar disso, no mês passado, um empresário de Pindamonhangaba (SP) morreu com a aplicação da vacina. Diagnóstico: envenenamento.

Atendendo à exigência de estar em jejum, me apresentei ao “terapeuta caboclo” que me feriu a pele do braço em sete pontos alinhados, usando a ponta de um cipó em brasa. Com a ponta de uma faca, ele depositou em cada ferida uma porçãozinha da gosma tirada da pele do sapo kambô, verde e manso.

Subiu-me um calor dos pés à cabeça. Meu sangue fervia. A barriga e o esôfago se contraíam. Enjôo e diarréia vieram com dor nas têmporas, arcada dentária, ânus. Fiquei com medo de morrer envenenado. Mas minha audição estava agudíssima. Depois de meia hora melhorei. Mas só voltei a ser eu mesmo depois do banho de rio.

Na igreja Flor da Jurema, terceiro dia de visita, numa porção de mata virgem ameaçada pelo desmatamento, pela malária e pelo progresso que chega com a construção da Estrada para o Pacífico, ao som de hinos, enfim senti pela primeira vez o efeito da ayahuasca.

Tive delírios por cerca de uma hora e, depois de duas horas de sono profundo numa rede, acordei.

A doutrina do Santo Daime separa os homens das mulheres durante as sessões e proíbe o sexo três dias antes e três depois dos trabalhos religiosos, para que a pessoa esteja “livre dos males mundanos”.

Todos os dias o daime é bebido, de manhã, de tarde e de noite, durante os 15 dias do feitio do chá, que acontece nos meses de fevereiro, abril, agosto, setembro e novembro. Fora dessa época, é só aos domingos, quando se realizam os trabalhos de cura ou de oração, e homens, mulheres e crianças bebem.

Com cinco noruegueses, dois suecos, um finlandês, um paulista e uma gaúcha, passei 15dias tomando o daime, na igreja ou na selva, sempre acompanhado das orações (“pais nossos”, “ave marias” e “salve rainhas”) e dos hinos de proteção, perdão, salvação.

Frase

Bebam à vontade, aproveitem que vocês estão na fonte e quem quiser levar ou receber no seu país a gente manda, respeitando a legislação local (ANTONIO ALTAMIRO ROSA PARENTE, 59, O MIRIM alquimista da igreja Flor da Jurema, ele é responsável pela feitura do chá).

4 Comments

  1. Anonymous says:

    Por quinze dias hospedado num hotel meio mixuruca do Rio ou de São Paulo, a pessoa talvez desembolse mais por muito menos: no máximo receberá um café da manhã com pão, queijo prato e presuntos, um suco, café e leite. À noite deverá previnir-se contra o pó do ar-condicionado.
    A mentalidade capitalista estaria, talvez, na equiparação monetária desses extremos. No mais, não há termos de comparação: dai-me o rapé, dai-me o kambô, dai-me o colírio, dai-me o Daime e, antes que me esqueça, dai-me distancia desses repórteres escrotos e, finalmente, dai-me o dinheiro. Com ele esse tesouro relatado terá sobrevida. Chega de hipocrisia. Se o repórter quiser morar lá, verá que certas coisas não têm preço. Mas custa-me acreditar que ele e os gringos cheguem a tanto. Sendo assim, que paguem o justo.

  2. Marcos says:

    Pelo jeito o reporter nao entendeu a essecia do Daime. “barato do Daime”, “chá alucinógeno”, são juizos de valor e preconceito, contra um cha pra muitos considerado sagrado, que é inofencivo à saúde, com pesquisas sérias, não há nada de alucinógeno.”Tive delírios por cerca de uma hora”, francamente, esse reporter nao entendeu nada!!!!

  3. Anonymous says:

    Eis a síntese da deturpação que fazem drogatitos e vendilhões do templo:

    “Bebam à vontade, aproveitem que vocês estão na fonte e quem quiser levar ou receber no seu país a gente manda, respeitando a legislação local”.

  4. Anonymous says:

    GRUPO MULTIDISCIPLINAR DE TRABALHO – GMT- AYAHUASCA

    RELATÓRIO FINAL

    31. Turismo, como atividade comercial, deve ser evitado pelas entidades, que por se constituírem em instituições religiosas, não devem se orientar pela obtenção de lucro, principalmente decorrente da exploração dos efeitos da bebida.

    32. A Constituição Federal garante o livre exercício dos cultos religiosos, que tem como conseqüência o direito à propagação da fé através do intercâmbio legitimo de seus membros. Neste sentido todos têm direito de professar a sua fé livremente e de promover eventos dentro dos limites legais estabelecidos. O que se quer evitar é que uma prática religiosa responsável, séria, legitimamente reconhecida pelo Estado, venha a se transformar, por força do uso descomprometido com princípios éticos, em mercantilismo de substância psicoativa, enriquecendo pessoas ou grupos, que encontram no argumento da fé apenas o escudo para práticas inadequadas.