Por Natalia Cuminale

 (Foto: Reuters)

O uso terapêutico de drogas como a maconha e o ecstasy ressurgiu no campo de pesquisas médicas e reacendeu o debate sobre os efeitos benéficos de drogas ilegais para condições específicas de saúde. Segundo estudos publicados em revistas científicas nos últimos anos, a administração controlada dessas substâncias pode ajudar, por exemplo, pacientes com câncer, AIDS, esclerose múltipla, dores crônicas agudas, além de ser útil no tratamento de transtornos psíquicos.

No Brasil, começa nesta segunda-feira uma discussão para a possível criação de uma agência nacional de cannabis medicinal, cujo objetivo seria aprovar e controlar o uso terapêutico dos derivados da maconha. Organizado pelo Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (CEBRID), o simpósio receberá autoridades brasileiras e profissionais da área, que deverão apresentar argumentos científicos sobre o uso benéfico da droga. “Não vamos discutir a legalização da maconha. Uma agência abriria a oportunidade de mais estudos no país, além de possibilitar o registro de medicamentos para uso em casos específicos”, explica Elisaldo Carlini, presidente do simpósio e coordenador do CEBRID.

Segundo Carlini, mais de trinta estudos sugerem que a maconha tem efeitos positivos quando utilizada para fins medicinais. Os pesquisadores perceberam que quando as moléculas canabinoides da planta (princípio ativo) são isoladas é possível encontrar as propriedades terapêuticas. A partir disso, foram desenvolvidos medicamentos que atualmente já são prescritos em países como o Reino Unido, Estados Unidos, Alemanha e Holanda.

“A maconha tem cerca de 400 substâncias dentro dela, 80 são canabinoides: entre elas encontramos o THC (tetrahidrocanabidiol), que é usado em tratamento de doenças como glaucoma, e o canabidiol, que tem o efeito ansiolítico”, explica o psiquiatra José Alexandre Crippa, que atualmente estuda os efeitos do canabidiol para amenizar os sintomas de pacientes com mal de Parkinson.

Propriedades terapêuticas da maconha e de drogas alucinógenas como ecstasy eCharles Grob, pesquisador da Universidade da Califórnia LSD despertam o interesse dos cientistas desde as décadas de 1950 e 1960. No entanto, o uso recreativo e as preocupações sobre os efeitos maléficos fizeram com que diversos países aprovassem em convenção da Organização das Nações Unidas (ONU) restrições severas para pesquisa médica com essas substâncias. “A literatura psiquiátrica daquela época já mostrava relatos de tratamentos bem-sucedidos com drogas psicodélicas”, afirma o psiquiatra Charles Grob, da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, que atualmente estuda os efeitos da psilocibina – substância alucinógena encontrada em cogumelos – no tratamento de ansiedade e do desconforto de pacientes com doenças terminais.

Em anos recentes, pesquisadores voltaram a olhar para essas substâncias como ferramenta aliada da medicina. No mês passado, um congresso realizado nos Estados Unidos reuniu cientistas do mundo inteiro para discutir os efeitos de alucinógenos no tratamento de problemas psíquicos. Durante o encontro, resultados de um ensaio clínico mostraram que o ecstasy – também conhecido como metilenodioximetanfetamina (MDMA) – vem demonstrando grande potencial para ajudar pacientes com stress pós-traumático. O transtorno pode ser desenvolvido por pessoas que vivenciam um trauma emocional severo e que são atormentadas por lembranças ruins, sofrem de ansiedade, sentem medo de que a situação se repita e têm dificuldade para dormir por conta dos constantes pesadelos. O tratamento convencional envolve terapia comportamental e a prescrição de medicamentos antidepressivos. No entanto, nem todos os pacientes respondem a esse tipo de abordagem.

De acordo com os pesquisadores, os voluntários observados no estudo não apresentaram efeitos adversos. Apesar de promissores, os resultados, que ainda não foram publicados, não são suficientes para garantir a eficácia de um tratamento convencional. Grob acredita que é importante que os pesquisadores atuais conheçam o que foi relatado no passado, já que podem encontrar referências importantes. “Exemplo disso seria o uso dessas substâncias para tratar alcoólatras crônicos. A medicina moderna nunca desenvolveu um tratamento efetivo para o alcoolismo”, diz Grob.

Drogas liberadas? – Diversos estudos científicos comprovaram que drogas podem desencadear dependência, depressão, esquizofrenia, entre outros efeitos danosos já conhecidos pela população em geral. Segundo os médicos, a diferença entre as pesquisas que apontam os malefícios para as que apontam os benefícios está no objetivo do uso. “Há uma grande confusão sobre isso. A maconha pode causar uma série de problemas à saúde, mas para o uso recreativo. Quando falamos do uso médico, é utilizada uma substância química específica, com dose apropriada e prescrita para uma condição particular de um paciente. Ela é contraindicada para fins não medicinais”, alerta Crippa.

O conhecimento a respeito do potencial medicinal da maconha não é novidade entre os cientistas. Enquanto alguns países já disponibilizam medicamentos à base de cannabis, as pesquisas com drogas como o ecstasy, psilocibina e LSD ainda são iniciantes no mundo científico. Devem demorar, portanto, a serem consideradas como uma alternativa de tratamento convencional. “Estamos muito distantes. Só começamos a abrir uma porta que foi fechada há 40 anos – não por falta de resultados, mas por conta de questões políticas e sociais daquele tempo”, avalia Grob. “Tratamentos com essas substâncias poderiam ser úteis para uma população de pacientes que não responde bem ao que está disponível. Na psiquiatria atual, a maioria está dominada por tratamento com medicamentos convencionais, alguns com efeitos colaterais severos”, finaliza.

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