Liana Utinguassú (*)

Palestra apresentada dia 17 de março de 2005 no Primeiro Encontro Brasileiro de Xamanismo, organização Léo Artése/ Associação Lua Cheia – Pax, São Paulo, 13 a 20 de março de 2005. (**)

Agradeço oportunidade de estar aqui!

Antes de mais nada, quero dizer que não tenho verdade sobre nada, tampouco estou aqui para julgar, apenas compartilhar minhas vivências.

Há mais de quinze anos atrás, comecei uma caminhada de peregrinação, que classifico como retomada de consciência. Minhas raízes não são diferentes das de milhões de brasileiros; hoje não me prendo mais na definição de raças, embora tenha eu origens Tupi Guarani. Não nasci em aldeia, posso dizer que nasci nesta aldeia chamada Brasil, ou Terra Brasilis.

Naquela época comecei a buscar um contato mais próximo com as etnias do Rio Grande do Sul, Kaingang e Guarani, de forma muito cautelosa, pois jamais quis ferir ou interferir no sistema de vida destes povos. Pedia permissão para visitar as aldeias, começando por Itapoá (Viamão) – que mais tarde se tornaria, de fato, a aldeia onde desenvolvi maior contato com os guarani.

Iniciei assim um trabalho voluntário que sigo até o presente. Tenho trabalhado como uma espécie de “intermediadora” para os guarani, que me tem como uma “irmã”. Busco recursos, apoio seus projetos etc. No momento, estamos estruturando uma ONG, uma OSCIP (organização da sociedade civil de interesse público) para poder trabalhar melhor.

Também dirijo o Espaço Ákila, que fundei há quatro anos atrás em Poá (Rio Grande do Sul). É um espaço focado no intercâmbio com povos indígenas. Dou cursos, palestras e atendimentos. Trabalho dentro de um foco Nativo, agregando outras técnicas, como massagens terapêuticas, conhecimentos em shiatsu, Jin Shin, terapias de pedras quentes e frias, terapia Reichiana, meteoritos, reiki, meditações etc. Mas a minha base de trabalho é em Medicina Indígena, por que sigo meu caminho espiritual. Trabalho com aplicativos, dentro do que me é repassado e que posso aplicar.

Jamais aplico algo sem ter recebido aval para isto de um homem ou mulher que eu tenha como um sábio conhecedor. Não quer dizer que não conheça certos procedimentos, mas “conhecer” é pouco para que tem uma visão do sagrado. Precisamos ter responsabilidade.

Bom, esta é um pouco da minha história, que compartilho aqui com vocês.

Vou falar hoje um pouco sobre os “Povos da Terra”. Quando uso esta expressão, não estou me restringindo apenas aos indígenas, embora eles sejam meu principal foco nesta apresentação. Povos da Terra somos todos nós. Independe do nome que atribuímos a Deus – Ñanderu, Tupã, Dedualla, Wakan Tanka, Taita Inti ou das várias profecias que existem – maias, bíblicas ou indígenas – todos povos e raças foram criados com uma proposta bem clara: cada um tem sua responsabilidade. E, em algum momento, devemos uni-los.

E este momento está aqui, agora. Não tenho dúvidas disto.

A questão que apresento é: que valores se perderam e que buscamos resgatar? Em que pé estamos?

Sempre busquei me olhar profundamente, porque acredito que as respostas estão dentro de nós mesmos. Respeito as religiões, sempre respeitei e valorizei… mas… questiono cada um de vocês: qual é o valor das coisas? O que cada um tem de importante?

Para mim, a Terra sempre foi e sempre será a grande prioridade. Sempre acreditei que para se entender o “xamanismo”, o Sagrado para os Povos Indígenas, deveríamos retomar a nossa consciência da Terra, valorizar e respeitar nossa Mãe. Infelizmente, todos sabemos que a história da humanidade vem sendo marcada por lutas, saques, perdas de povos e da sua essência cultural.

Nestes anos de convivência com alguns povos indígenas, sobretudo os Guarani, percebi que existe um enorme buraco em sua alma. Eles mesmos falam disto. Aliás, têm seu livre arbítrio muito mais aprofundado do que sonhamos imaginar….

Quando chegava nas aldeias e via lixo, plásticos, sujeira, maus tratos com animais, vício e outros hábitos negativos adquiridos do nosso sistema, enfim, uma desestruturação geral, me perguntava: – “O que é isto? Onde está o Sagrado? Onde estão as Casas de Reza, o conhecimento tradicional? Onde está o Guarani? Onde estão meus ancestrais?”.

Eu não nasci em aldeia, mas não sei o que é pior hoje, nascer aqui ou lá. Nós da cidade estamos vivendo tempos difíceis. Também perdemos muito do que realmente importa, vivemos a era do tudo é possível, vivemos mil e uma possibilidades e com efeito não temos nada.

Hoje há o medo de viver, medo não só ligado ao terrorismo de toda espécie – de bombas, climático, violência urbana. Outro dia, lendo um texto em uma destas revistas fashion [Wake Up], encontrei as sábias palavras da jovem Carol Teixeira, que me permito mencionar aqui porque elucidam bem o que penso. Ela se refere ao choque que sofreu ao saber que um amigo de sua época de adolescência havia se suicidado. Ao ler, pude ver e sentir todos os índios que se suicidam dia após dia e outros são brutalmente queimados, chutados por uma sociedade como a nossa.

A jovem Carol citava o sociólogo Gilles Lipovetsky. Ele diz que hoje a obsessão por si tem se manifestado não mais na febre de prazer e gozo a qualquer custo, mas através do medo da doença, do envelhecimento, do corpo… quer dizer, pela medicalização de tudo. Diz ele: “Narciso está menos apaixonado por si mesmo que aterrorizado pela vida cotidiana; seu corpo e o ambiente social parecendo-lhe mais agressivos”.

Na Divina Comédia de Dante, está escrito na porta de entrada do inferno: “Deixai aqui todas as suas esperanças, ó vós que entrais”. Isso é o que é o inferno. Esta é a perda de valores de todos nós Humanos, não apenas de um ou outro grupo, mas da humanidade como um todo – que assim se torna frágil, vulnerável, desequilibrada.

Os Yanomami, ao serem criticados por ocuparem as estradas, dizem: “Vocês deveriam agradecer que estamos nas estradas e não internados em manicômios!”. Bato palmas e me curvo aqui diante dos indígenas, negros, chineses, japoneses, judeus, muçulmanos, aborígines australianos, homens e mulheres, crianças e anciões desta Terra Sagrada por não estarem todos em um manicômio.

Nestes dias do Primeiro Encontro Brasileiro de Xamanismo vivi justamente um dilema deste tipo. Pegava o ônibus Vila Mariana, descia no Metrô Vila Mariana e depois na Estação Santana e em seguida tomava outro ônibus para Pax. Numa destas ocasiões, vi um jovem de dezoito anos – vou chamá-lo de Kuaray Mirim, que em Guarani significa Sol Pequeno – que passou a me olhar com curiosidade…. Até que lhe fiz um comentário: – “que loucura São Paulo, não?” e ele desabou a chorar. Este Pequeno Sol se tornava ali, para mim, um filho da Terra, renascendo e se debatendo em deixar o colo, o berço da Mãe e cair na cidade.

Um choro compulsivo em meu ombro, que me deixou sem fala, em suspensão. Em seguida eu deveria dar minha palestra, mal consegui me expressar, não sei se alguns de vocês perceberam… Desculpa por encher vocês com minhas histórias pessoais, mas é que este episódio traduz bem as questões que estou colocando aqui.

Não há raças, é a Raça Humana que grita – porque perdeu a sua conexão. Em algumas tribos indígenas, as mulheres enterram o cordão umbilical de seus filhos debaixo da árvore que escolheram para tê-los, na mata. Quando este filho parte para a Terra Sem Mal, deverá ser enterrado ali, no mesmo local, para que seu espírito nunca deixe de ter esta força, esta conexão. É assim a sabedoria nativa, a espiritualidade nativa.

Sem ser pessimista ou destrutiva, mas realista, há algum tempo deixei de ver algumas questões com “óculos cor de rosa”. Passei a querer achar soluções e a me movimentar traçando metas, objetivos concretos, projetos bem definidos para buscar urgentemente colaborar na reestruturação da infra-estrutura e auto-sustentabilidade indígena.

Comecei a entender que para se resgatar os Valores dos Povos da Terra, devemos ter consciência em primeiro lugar de quem fomos, somos e seremos. A partir desta consciência, e respeitando o ritmo destes povos, poderemos agir.

Em muitas ocasiões, questionei se deveria levar pessoas para as aldeias, para conhecer os Guarani, sua cultura, e fazer trilhas. Com o tempo, deixei de promover as trilhas. Há algumas aldeias bastante miseráveis, e a visita de pessoas de fora gerava constrangimento, vergonha, riscos.

Nós chegamos lá todos bem vestidinhos, com nossos recursos… Eles acabam sentindo isto. Também percebi que muita gente ia lá com um espírito de saquear a cultura. Tem um desejo, uma fome exagerada, querem saber e saber…. Mas os Guarani não gostam de falar por exemplo das suas relações com as suas divindades. Não gostam que qualquer um entre nas suas Opy (casas de reza).

Algumas pessoas da cidade entram nestes espaços e recebem “batismos”, nomes indígenas e coisas assim. Entre os mais velhos – que geralmente resguardam o segredo – isto muitas vezes gera desconforto. Muitos índios são totalmente contra este tipo de coisa, pois acreditam que há uma distorção. Mas há divergências. A aldeia às vezes fica dividida.

Eu nunca pedi um nome de batismo, embora tenha recebido um deles, que tem seu significado. Recebi naturalmente três nomes de outras etnias também e nunca senti necessidade de divulgar, e não pretendo fazer isto. Não vejo muito sentido nisto. Mas esta é apenas a minha visão e respeito outras.

Eu entendo que tem algumas coisas que não posso saber. Não posso e pronto.

Existem muitas pessoas sérias, responsáveis, que sabem do que estou falando: muitos indígenas vendem seu Sagrado, saberes que alguns anciões jamais permitiriam que sequer falássemos a respeito – às vezes sem saber porquê, ou por sobrevivência ou mesmo por acreditarem agir corretamente. Creio que existem ensinamentos que apenas e tão somente compete às populações nativas exercerem… Perdoem-me, é uma opinião, um ponto de vista.

Não vim aqui para falar pelo índio, que pode falar por si mesmo. E existem pessoas do mais alto gabarito acadêmico, estudiosos do assunto, como Jean Matteson Langdon, que sabem muito mais do que eu – conhecem profundamente a história destes povos. Falo apenas por mim mesma, pela minha trajetória junto a alguns povos. Vim aqui para compartilhar experiências, trocar com vocês.

Estive no Fórum Social Mundial de Porto Alegre no início deste ano (2005) com indígenas tanto da América do Sul, como do Norte. Lideranças do Alasca e Canadá, que representam muitas nações de lá, me alertaram sobre o perigo dos saques que ainda existem do sagrado, de suas medicinas.

Estas lideranças se reuniram em minha residência, juntamente com alguns irmãos de outras etnias – Guarani, Kaingang, bolivianos e peruanos e uma Tariana (tribo do norte do Brasil, praticamente extinta) – e fizeram um Conselho. [Conselho é quando um grupo de indígenas se reúne e compartilha uma Chanupa, Pipa (Cachimbo Sagrado) e resolve questões entre eles]. Eu estava lá, mas 98% era índio mesmo.

Eles me solicitaram comunicá-las neste Encontro de Xamanismo aqui em São Paulo. Reuni estas informações com minha pouca experiência. Chegando aqui, senti um chamado forte para comunicar isto. Este assunto deve ser tratado desta maneira, no presente momento, fora das aldeias, porque é um assunto que envolve não indígenas, e talvez até pessoas muito doentes.

Passo a citar palavras deles. Alguns deles nem quiserem ficar no Fórum, não se deixaram filmar. Eles pediram para não divulgar seus nomes.

1) Devemos ter cuidado com o “comércio do espírito”;

2) Os indígenas norte-americanos, assim como os verdadeiros guardiões de cultura espiritual brasileira, não compartilham seus conhecimentos e ritos com ninguém que não seja de um círculo bem restrito – em 98% dos casos, as próprias populações indígenas.

3) Quem é guardião da cultura esotérica não pode, por diversas razões, sair falando desse saber em público e para não iniciados.

4) As pessoas precisam conhecer o “índio maçã”, aqueles que são “vermelho por fora mas branco por dentro”. Esses jamais foram iniciados em segredo algum, porém repassam para alguns ocidentais coisas que, na realidade, são bem superficiais e em algumas das vezes fantasiosas.

5) Algumas pessoas com títulos, que saem falando por aí, tem muito pouco a ver com qualquer cultura indígena de verdade. Não basta fazer um curso sobre cultura indígena para ser um iniciado. Filmes e livros são coisas para ocidental.

“Existe um grupo que faz brincadeira com os brancos, faz com que eles passem por rituais – que na realidade não são nada – só porque os brancos querem ser índios. Alguns indígenas do Norte e outros “índios maçãs” fazem o mesmo. Não estão repassando de fato conhecimento. O ego das pessoas faz o resto”.

“Pode dizer que quem te falou estas coisas foi alguém que nasceu e viveu entre as Onças, morou com o Irmão Coiote enquanto virava Lobo, para logo depois voar com as Águias e correr com os Cavalos para escutar o canto das Baleias. Não precisamos nos identificar… Quem tiver entendimento saberá que quem fala desta forma sabe respeitar a Terra e toda criação, e cada irmão como parte desta mesma Terra”.

Pelo momento, é isto.

Este tem sido meu caminhar. Não busco me tornar nada e sonho com o dia em que todos dançaremos juntos em volta de um mesmo fogo, entendendo-nos apenas e tão somente pela linguagem dos nossos corações, sem nos preocuparmos com a língua, com a crença de um ou de outro, muito menos com a cor da pele.

Isto eu trago no meu espírito e isto eu escuto de muitos Homens e Mulheres com os quais tive permissão de compartilhar de uma dança, uma pipa, ou apenas o silêncio nas montanhas, na mata, na cidade.

Todos temos uma grande responsabilidade naquilo que plantamos até aqui, que estamos colhendo e como caminharemos daqui adiante.

Agradeço Bia Labate pela oportunidade em compartilhar.

Reverencio a Terra, os Filhos da Terra, me permitindo citar aqui o nome de Orlando Villas Boas, que contribuiu para valorizar estes povos; o ecologista José Lutzenberger. que tanto me ensinou com sua postura de valor e respeito à natureza; ao meu Pai Kallawaya, (curandeiro boliviano com quem tenho uma relação espiritual, que muito me ensina); a todos os Povos Indígenas por não desistirem, pela força de seus espíritos. A minha Família na Terra e a Família Universal.

Iporã Eté. (***)

Obrigado. (****)

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(*) Liana Utinguassú
É Educadora. Formou-se em Magistério no segundo grau;
É Bacharel em Comunicação Social/ Turismo pela PUC-RS.
Está elaborando uma OSCIP (organização da sociedade civil de interesse público), voltada para trabalhar com os Valores dos Povos da Terra;
Dirige o Espaço Ákila, pioneiro no intercâmbio cultural indígena. Promove viagens de cunho espiritual com propósitos bem claros de respeito e ajuda mútua, onde os indígenas determinam o que será possível fazermos pela nossa cura, pela cura da terra.
liana.rs.lumina@terra.com.br
http://www.espaconatakila.hpgvip.com.br/

Nota: Liana enviou um texto por escrito que tinha forma de uma apresentação oral. Este texto foi revisado e editado por Bia Labate. O processo implicou, provavelmente, na perda de um pouco do estilo de expressão da autora, porém procurou-se ser ao máximo fiel ao seu contudo e espírito.

(**) A antropóloga Bia Labate realizou uma consultoria para o evento.

(***) Em outra ocasião do Primeiro Encontro Brasileiro de Xamanismo, no dia 19 de março de 2005, após a palestra “A Pajelança Guarani”, de Timóteo Verá Popygua, cacique da aldeia Guarani Tenonde Porá, Barragem, Parelheiros (São Paulo), Liana Utinguassú cantou um canto. De acordo com ela, “aprendi com os guarani – chama-se Petenguá Mirim e fala do infinito. Eles cantam nas suas Opys (casas de reza) e só autorizam a cantar em momentos sagrados”.

(****) Agradecimento Guarani. A expressão completa é iporã Ete Ajojevete.

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