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Textos: Flaviano Schneider Fotos: Onofre Brito |
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| 08-Nov-2009 | |
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A alegria do povo Yawanawá de portas abertas para o mundo
O programa Câmera Record está preparando documentário de uma hora sobre o Acre em que o festival será o tema principal. Ele será divulgado em rede nacional e para 150 países pela Record Internacional. Também farão parte do documentário as belezas naturais do rio Croa e da Serra do Divisor. Segundo a editora da reportagem, Márcia Regina, o Acre é diferenciado. Tem a consciência do índio e do seringueiro e está retomando suas tradições. O repórter Alex Sampaio vivenciou todas as cerimônias e ficou bem impressionado com o efeito do veneno do Kampu em seu corpo. Segundo explicou, no início foi difícil, com vômitos, mas depois a sensação foi “de limpeza e bem-estar”. O repórter Alan Kronemberg, da revista Aventura e Ação, está preparando uma matéria especial sobre o Acre, tendo, mais uma vez, o festival como atração principal. A reportagem deverá ser publicada este mês. A Organização dos Povos Indígenas do Vale do Juruá (Opirj) também registrou muitas imagens do festival. Seu presidente, Osmildo Kuntanawa, elogiou o povo Yawanawa, que “está dando exemplo de organização”.
Festividade consolida o Acre como destino etnoturístico
A natureza mostrou toda sua beleza, tanto nos momentos em que iluminava e ardia um sol poderoso, quanto naqueles em que caíam chuvas torrenciais. À noite, a lua, esplendorosa no céu, ora se escondia atrás de nuvens pesadas, ora mostrava sua face luminosa por entre nuvens finíssimas, desenhando mandalas no céu e espiando aquela multidão feliz, enfeitada com cocares, vestida com saias tecidas com palhas de buriti e os corpos pintados com urucum e jenipapo. Era o povo do queixada mostrando às forças criadoras através de cânticos, danças, brincadeiras, culto às tradições e espirituais que a existência humana sobre o planeta é possível, e, mais que isso, pode ser feliz. A festa do povo Yawanawá firmou-se como a mais expressiva manifestação da cultura e espiritualidade indígena no Acre, um Estado rico em diversidade étnica, com 14 povos indígenas, muitos deles da etnia Pano, na qual os Yawanawa se incluem. A festa não surgiu agora – muito antes de conhecer o homem branco, os Yawanawás faziam seu festival e convidavam os outros povos indígenas da região. Depois do primeiro contato com o homem branco, ocorrido na primeira metade do século passado, o “povo do queixada” (tradução de Yawanawá) passou por um período nebuloso, tornando-se praticamente escravos de seringalistas e, mais recentemente, sofrendo o assédio de missionários americanos que tentaram destruir a cultura original, proibindo a continuação das cerimônias sagradas, insinuando que andar nu é pecaminoso e implantando uma religião e um estilo de vida alienígenos. Acabaram expulsos pelo cacique/pajé Biraci Brasil (Nixiwaka), do qual se pode informar que é o maior responsável pelo ressurgimento vigoroso da cultura e espiritualidade Yawanawá. Outra batalha vencida pelo povo Yawanawá foi a demarcação de sua terra. Hoje, depois da revisão dos limites, a terra indígena incorporou nascentes e áreas de perambulação e ficou com 186.395 hectares, um território que começa no médio rio Gregório – expressivo afluente do rio Tarauacá, situado no vale do rio Juruá -, seguindo até suas cabeceiras, tudo dentro do município de Tarauacá. A aldeia Nova Esperança – palco da festa – é a principal, abrigando mais da metade de toda a população Yawanawá, onde está localizada a maior escola e onde mora o cacique Biraci e a esposa Putany, primeira mulher pajé do povo Yawanawá. Planejamento eficaz e bons resultados
A organização do festival gera uma intensa atividade interna dos índios, preparando suas casas para receber os visitantes, limpando os canais do rio, produzindo tinturas de urucum e jenipapo, tecendo pulseiras e cocares, colhendo o veneno do kampu, preparando rapé e Uni. O investimento dos Yawanawá é alto em recursos monetários e em horas de trabalho dedicados ao planejamento, estruturação e realização, período em que precisam interromper suas atividades habituais. Fator decisivo neste VIII Festival para o equilíbrio das contas foi a presença dos turistas, levados por uma agência acreana e um grande contingente de daimistas do Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília. Os visitantes tinham, na hora do café, almoço e jantar, um ótimo momento de interação, onde se firmaram amizades entre pessoas de diferentes linhas espirituais, de estados e países diferentes. Por toda parte havia cachos de banana madurinha, à disposição de todos. As pamonhas de milho, as pupunhas também puderam ser apreciadas e fizeram sucesso. No período mais quente do dia, no intervalo das brincadeiras, o refúgio era no imenso chapéu de palha, onde quem quisesse podia cantar, tocar, batucar, uma diversão diária. Durante o VIII Festival Yawa muitas portas se abriram para todos os participantes, através da interação entre conhecimentos e experiências diferentes. Para o povo Yawanawá significou também o estabelecimento de um convênio com o Jardim Botânico do Rio de Janeiro. O convênio firmado entre Biraci e o pesquisador Alexandre Quinet vai possibilitar que índios da aldeia visitem e estudem no Jardim Botânico, ao mesmo tempo em que pesquisadores da instituição visitarão a terra Yawanawá. O Jardim Botânico também dará apoio técnico no manejo da flora. O convênio terá grande importância para a solidificação do Centro de Formação e Memória do povo Yawanawá que está sendo implantado na Aldeia Sagrada. Com assessoria do líder daimista Paulo Roberto, o povo Yawanawá entrará com um projeto junto ao Google de monitoramento de todo o território via satélite, o que vai lhe possibilitar a visão e proteção de seu território, dos recursos naturais, flora e fauna em tempo integral.
Turismo na aldeiaO VIII Festival Yawa realizado nos dias 25 a 29 de outubro mostrou que o Acre, com 14 etnias em seu território, tem enorme potencial para o etnoturismo. Uma empresa de turismo local conseguiu vender 25 pacotes. São turistas que atenderam ao apelo etnoturístico. Para o gerente da agência, João Bosco, a atividade turística no estado tem crescido devido ao apoio decisivo do governo estadual, que está estruturando o setor. Ele tem a expectativa de que outros líderes indígenas organizem seus calendários festivos para que haja novas parcerias turísticas. Três operadores de turismo estiveram no festival, avaliando o potencial de atração dele para seus públicos, um deles, francês. O operador paulista Israel Waligora acha que está surgindo um grande interesse no Brasil em conhecer as culturas indígenas e isso ainda não está muito acessível. “Nesse ponto, o Acre inova” comentou. Ele considera que para o povo Yawanawá, o festival pode significar uma fonte de renda de modo que facilite a preservação da floresta. Já para o visitante que vem de outras regiões do país, fica o incentivo para ser mais brasileiro. ”Somos assediados por tantas manifestações culturais de fora enquanto existe uma riqueza cultural tão consistente pelo país afora” comentou. O advogado criminalista e conselheiro da OAB-SP, Otávio Augusto Rossi Vieira, comprou um pacote turístico e participou intensamente do festival, tanto das cerimônias quanto das brincadeiras e danças. Ele é ayahuasqueiro e participa de um grupo xamânico. “Sempre estive em busca do sagrado. Comecei com os índios norte-americanos. Sem querer, pesquisando pela internete cheguei aos Yawanawá. Gostei das sessões de Uni e do rapé. Gostei das brincadeiras, das pessoas e do local. Para lidar com o ego é muito bom estar aqui” – disse.
Cerimônias do rapé e do Uni
O rapé é uma unanimidade entre os Yawanawás. Parece que todos gostam. Ele é feito unicamente de tabaco e cinzas de outras árvores,dentre elas o Pau Pereira. Soprado para dentro das narinas através de um instrumento tipo um bambu oco, o Tipi, e aplicado por um pajé provoca uma forte reação nos mais inexperientes. Também pode ser aplicado pela própria pessoa com outro instrumento denominado Kuripe.
O soldado PM de Cruzeiro do Sul, Márcio Rodrigues, experimentou o rapé. A respeito de sua experiência disse: “A gente percebe o rapé como uma renovação espiritual. Você reflete sobre si mesmo, procura seu eu interior. Também tomei o rapé para entender melhor a maneira como os índios vivem, esta força que há na aldeia. No primeiro momento deu vontade de vomitar, mas, passado o desconforto, veio uma sensação boa, leve.
Marco regulatório para o turismo em terra indígena
Em relação aos aspectos legais relacionados ao turismo em terra indígena, Cassiano informa que está sendo construído um marco regulatório e o festival Yawa serve como exemplo. “A abertura do festival para atividade turística foi um convite do próprio povo Yawanawá, de dentro para fora, e esse deve ser o primeiro preceito ético. Além disso, existem outras considerações como a verificação do impacto cultural, se este contato não está modificando o cotidiano do povo indígena. Há questões como os direitos de imagem, como se dará essa entrada na terra indígena, etc” – explicou. A Secretaria de Turismo deu assessoria técnica aos Yawanawás, ajudando a criar a comissão organizadora e assessoria relacionada ao recebimento de turistas.
Brincadeiras e danças: o motor do festivalO Festival Yawa tem duas partes distintas: a lúdica e a espiritual, ambas sempre acompanhadas de canções. É preciso dizer que os Yawanawás são afinadíssimos, as vozes são maviosas e os cânticos, belíssimos. Algumas canções são cantadas apenas nas brincadeiras e danças, outras somente nas cerimônias com Uni e, finalmente, algumas são comuns aos dois momentos. As brincadeiras e as danças são o motor do festival. Elas ocorrem durante todas as manhãs até meio-dia ou mais e, à tarde, a partir das quatro horas mais ou menos, e entram noite adentro. Algumas lembram as brincadeiras de roda, outras são específicas, sendo as mais notáveis as brincadeiras/danças: do lançamento do bastão, do jabuti, das abelhas, do macaco prego, do urubu, do morcego, da cana, do mamão, do peixe-boi, do carapanã, do sapo, entre tantas outras. Elas são puxadas pelo incansável pajé Yawa, pelo Biraci, o velho Tatá, as duas irmãs pajés Putany e Ushahu, outros adultos e até por jovens como Xaneihu, filho de Biraci, estudante de administração na capital acreana e um dos líderes que despontam na nova geração de índios acreanos. Nani Yawanawá é um dos maiores líderes entre os Yawanawá. Ele e a esposa Fátima administram a aldeia Nova Esperança. Fátima é a grande animadora, sempre convidando todos a entrarem na roda. Nani explica que as brincadeiras não se destinam à diversão simplesmente. Elas vão além, tem um significado e um proveito que se tira dela. Ele conta que a brincadeira do lançamento do bastão (que hoje é feito com madeira bem leve) representa como os guerreiros eram escolhidos no passado para a guerra. Os guerreiros tinham que mostrar habilidade para pegar no ar a lança atirada contra ele e no mesmo ato devolvê-la contra o oponente, só assim iriam para a guerra. Na escolha original, os guerreiros Yawanawás usavam não um bastão, mas uma lança de verdade, de guerra. A fotógrafa Livia Buschele, que está fazendo um livro de fotografias sobre o povo Yawanawá, conta que no início ficou um pouco inibida de entrar nas brincadeiras, mas depois viu que os índios têm o maior prazer em ver os visitantes na roda, o que a animou a brincar também. Foi o que se viu todos os dias, índios, brasileiros, estrangeiros, homens, mulheres, crianças e velhos girando a roda da alegria das danças Yawanawás, cantando canções maravilhosas e sentindo a satisfação de simplesmente brincar.
Aliança espiritual com o Santo Daime
Esta aproximação avançou durante o VIII Festival e solidificou-se através de uma aliança selada entre o cacique Biraci Brasil e Paulo Roberto Silva e Souza, líder da Igreja daimista Céu do Mar, situada no Rio de Janeiro. Paulo Roberto já abriu igrejas daimistas em 14 países e combinou a ida de uma comitiva Yawanawá a nove países europeus no início do próximo ano. Segundo Paulo Roberto a abertura da aldeia ao Santo Daime – que é uma religião cristã – por parte dos Yawanawás demonstra sua tolerância religiosa.
No início da aproximação com o Santo Daime, alguns membros da aldeia estranharam. O índio Teka Matxuru, um dos generais do cacique Biraci, conta que ficou desconfiado. No entanto, durante o feitio do Daime, em fevereiro, na Aldeia Sagrada, quando caminhava do centro da aldeia para a casinha do feitio, teve um encontro espiritual com o patriarca Antônio Luiz, o reverenciado cacique e pajé maior da espiritualidade Yawanawá, falecido na década de 1970. Segundo Teka, Antônio Luiz lhe disse então que os homens que estavam chegando eram diferentes, eram homens da verdade. Daí em diante, para ele acabou a desconfiança, entrosou-se com os daimistas tendo participado ativamente de todo o feitio e os considera aliados. O cacique Biraci e Nani Yawanawá já tiveram sonhos em que o Mestre Irineu e o Padrinho Sebastião, ícones do Santo Daime – ambos desencarnados – apareceram na aldeia. Interação com outras tradições religiosas
Do Norte do México veio a cerimônia do Temascal (sauna sagrada) trazida pelo índio Teska, do povo Quatitil, descendente dos Aztecas. Ele nasceu em São Luis Potosí, santuário do peiote (planta sagrada dos índios norte-americanos e mexicanos) e apresenta a cerimônia juntamente com Adriana, a esposa brasileira. Teska conta que o Temascal é praticado pelos índios do Norte do México e Sul dos Estados Unidos (os peles-vermelhas), havendo registros em cavernas de sua existência há 40 mil anos atrás. No terreiro da aldeia Yawanawá foi montada a barraca de forma circular da sauna sagrada e durante todos os dias aconteceram sessões do Temascal, sempre acompanhado de cânticos apropriados, alguns da tradição original Quatitil. Segundo Teska, a barraca representa o útero materno, o retorno à vida intra-uterina. Também representa a noite de onde se sai para o dia, purificado. Do lado de fora da barraca é acesa uma fogueira na qual são colocadas pedras de três a cinco quilos até ficarem vermelhas. Estas pedras são colocadas no interior da barraca, bem no meio, e sobre elas primeiro são colocadas ervas aromáticas e medicinais – que espalham calor e perfume ao ambiente – e depois é derramada água sobre as pedras o que provoca um forte vapor de água que enche todo o ambiente. Este procedimento é feito quatro vezes. Durante cerca de uma hora, 20 pessoas adentram à tenda. O calor é quase sufocante e o suor escorre em bicas. Enquanto isso, são entoados cânticos, qualquer um podendo participar. No final um banho no rio Gregório e uma agradável sensação de descarrego e leveza. O Temascal é uma pré-cerimônia ao uso ritual do peiote, adaptando-se perfeitamente como pré-cerimônia ao Uni ou Daime.
Yawá e as crianças
O médico Bruce Rind e a esposa Lind Potter, que é enfermeira, são norte-americanos e vieram apreciar a festa, mas acabaram trabalhando muito, principalmente na área de fisioterapia, tendo atendido vários índios e repassado conhecimentos aos enfermeiros Yawanawás. Ficaram impressionados com a educação das crianças Yawanawás. Para eles, isso é resultado do respeito com que são tratadas pelos adultos. “Os Yawanawás são pessoas boas e felizes. As crianças brincam e cuidam um do outro, não se veem brigas. Adultos e meninos parecem ser iguais”, disse.
Artesanato em expansão
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Bia Labate (Beatriz Caiuby Labate)
is a Brazilian anthropologist. Her main focus of interest is the study of psychoactive substances. Labate is author, co-author and co-editor of six books and one journal special edition. Subscribe to this site’s companion newsletter, which covers the author’s writings, the universe of ayahuasca and psychoactive substances in general, legislation on drugs, important conferences and activities in the field. Postings are in English or Portuguese and typically appear a few times a month.Subscribe to my newsletter
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