Tatiana Menkaiká (*)
Comunicação apresentada na mesa redonda “Xamanismo, xamanismo urbano, xamanismo universal, xamanismo crístico, neoxamanismo: afinal o que é isto?”, Primeiro Encontro Brasileiro de Xamanismo, organização Léo Artése/ Associação Lua Cheia – Pax, São Paulo, 13 a 20 de março de 2005. (**)

“Neste tempo da história não devemos tomar nada pessoalmente e muito menos a nós mesmos, porque este é o momento em que não podemos deter a nossa jornada espiritual”. — Os Anciões – Oraibi, Arizona – Nação Hopi

A associação entre xamanismo e espiritualidade nativa dos povos americanos, tal como chega ao nosso momento presente, se deu por vários fatores, a partir da década de 50, através dos movimentos sociais e culturais que agregaram a esta relação novos valores, alegorias e simbolismos.

A sistematização de algumas práticas inspiradas nas culturas nativas para o meio urbano é, muitas vezes, confundida com uma representação “fiel” do que seria a espiritualidade de um determinado povo. Estas co-relações têm originado uma certa confusão, principalmente no que tange ao respeito para com os rituais e cerimônias próprios da religiosidade dos povos.
Exponho a seguir algumas reflexões pessoais sobre esta relação e sobre onde podemos interagir objetivando o respeito para com o outro, o esclarecimento e uma cura efetiva a nível não somente pessoal, mas planetário.
Definirei como “nativo” ou “indígena” as expressões relacionadas à população autóctone, originária da localidade, em qualquer parte do mundo. A palavra “indígena” está geralmente associada aos povos nativos das Américas, assim denominados em função dos colonizadores que acreditavam ter chegado às Índias.
O xamanismo, em sua essência, não pertence unicamente a um determinado povo ou cultura, pois é fruto de um fenômeno que ocorre no início do despertar da própria consciência humana, sendo assim, uma herança de toda a Humanidade.
Xamanismo, no sentido tradicional, é o termo utilizado para identificar as práticas que utilizam o êxtase, o transe, o estado alterado de consciência para estabelecer contato com o mundo sutil de energias, o invisível, o universo paralelo, ou ainda, outros mundos e realidades, expandir a consciência. Estas práticas, nas mais diversas culturas ao redor do globo, têm como função buscar conhecimento, curar, viajar, contatar os espíritos e forças. O xamã seria, tradicionalmente, uma pessoa reconhecida pela sua comunidade que apresenta ou desenvolve estas habilidades.
Originalmente o termo “xamã” começou a ser utilizado por viajantes do século XVI que estiveram em contato com os tungu (Sibéria) que definiam por “saman” o homem que, em êxtase, era o intermediário entre os mundos, operando curas, adivinhações e cerimônias mágico-religiosas com a ajuda de espíritos auxiliares. Os colonizadores americanos falavam dos homens-medicina, ou “medicine men”. No século XVIII, a palavra já figurava em publicações européias. Depois, o termo tomou força nos meios acadêmicos e científicos substituindo as designações populares, até então utilizadas, de curandeiros, feiticeiros, bruxos.
Para os evolucionistas, por exemplo, o xamanismo seria uma forma primitiva de religiosidade e designaria um dos estágios pelo qual passa a Humanidade até chegar às religiões “institucionalizadas” propriamente ditas. Sob este prisma, é normal vermos colocações onde o xamanismo seria o precursor de várias religiões, já que muitas de suas práticas estão, originalmente, vinculadas a crenças mágico-religiosas.
O xamanismo inspira a religiosidade pelo seu contato com o mundo do invisível e dos espíritos (principalmente os da natureza), porém não é religião. Há diferença entre religiosidade e religião. A primeira é como nos relacionamos com o universo mágico e místico, é a fé, é a nossa visão de mundo. Já a religião baseia-se em dogmas, doutrinas, e liturgias específicas. O xamanismo estaria então, sob este aspecto, além de dogmas.
Asociamos as culturas nativas ao xamanismo, sejam do Norte da América, do México, dos Andes, da Europa, porque nelas se preservam, até hoje, algumas práticas de alteração da percepção e da consciência. Muitas destas práticas ocorriam, ou ocorrem, dentro de cerimônias específicas destes povos. A grade maioria dos interessados nas práticas xamânicas acabam por conhecer e reverenciar estas sagradas cerimônias e sentem afinidade com esta visão de mundo, pois é uma forma de manter a prática dentro do contexto que lhe deu origem. Mesmo assim, isto tem levantado questionamentos e até posições fervorosas por parte dos povos que alegam que têm, em muitos casos, a suas cerimônias usurpadas e utilizadas sem critérios e parcimônia.
Nos Estados Unidos, por exemplo, há um movimento forte dos nativos contra o “xamanismo”, por acreditarem que sob esta denominação escondem-se, na sua maioria, pessoas que usurpam suas cerimônias e que “vendem” a ilusão de um modo de vida que não corresponde à realidade.
Os povos nativos da América do Norte parecem ser os que mais sofrem com estas questões, devido principalmente ao retrato “hollywoodiano” que pintam de sua cultura e que chega através da mídia nos confins da terra.
A imagem do “bom selvagem”, do herói ecológico é, hoje, uma distorção imensa da realidade, onde há um certo contingente de indígenas que depredam o próprio meio ambiente, auxiliam no desmatamento, nas explorações das riquezas minerais, bem como muitos criam “pacotes turísticos e espirituais” da própria cultura.
Embora o xamanismo possa estar inspirado em várias práticas de origem nativa e ancestral, temos que compreender que ele não é a espiritualidade indígena e nem exclusividade das Américas. Primeiramente porque, como já mencionamos, é anterior até ao povoamento do continente americano e é uma manifestação que acompanha a Humanidade na sua caminhada pela exploração da consciência. E depois, porque as práticas de ampliação da percepção através do êxtase se estendem por todo o globo terrestre, tendo sido encontradas entre europeus, africanos, orientais, etc.
Um exemplo de prática inspirada nas tradições nativas é a utilização do tambor. O tocar tambor não é necessariamente xamanismo, mas atingir estados alterados de consciência através dos toques do tambor é uma prática xamânica. Michael Harner, em seus estudos junto a algumas tribos, observou que atingiam o êxtase unicamente com os sons dos tambores. Inspirado nisso, temos hoje uma prática bastante utilizada no meio urbano, que é a jornada xamânica com tambor. Outros estudiosos, como Terence MacKenna, acreditam que a exploração da percepção e da consciência se deu através da utilização de plantas psicoativas, sendo este o cerne da prática xamânica.

Don Agustín Guzmán, peruano que trabalha com o cactus Wachuma (Echinopsis pachanoi) há mais de 15 anos, acredita que a palavra “xamanismo” está na moda e não é apropriada para designar as práticas de culturas ancestrais. Tais cerimônias e práticas, que mesclam religião, mistério, ancestralidade, ciência e magia, são chamadas de medicina tradicional dos povos.

Alguns movimentos da sociedade ocidental, a partir dos anos 50, como os beatniks e hippies, começaram a revalorizar as espiritualidades advindas do Oriente e também das culturas da própria localidade. O xamanismo é uma das práticas que toma força, incentivado, talvez, pelo psicodelismo um tanto caótico da época. Há uma enaltação, pelas necessidades do momento, de valores éticos, transculturais, ecológicos, novas visões de mundo e novos simbolismos inspirados em tradições ancestrais. Desta época também temos a idéia de paz, amor, do feminismo, do nativo “ecologicamente” correto, de que todos somos um organismo único, respirando juntos. Este reflexo nos deixa como herança até os dias de hoje, uma mescla entre as espiritualidades voltadas para a visão do ser como um todo e culturas voltadas para a natureza. Começa-se a falar de energia, vibração, aura, conexão, transcendência. Surgem novos meios de exploração da consciência. A visão holística do ser, o respeito, a paz, o amor são também legados fundamentais.
Há uma compreensão de que muitas das enfermidades originam-se da alma, das emoções, do espírito, e o ser é considerado como um todo. Busca-se tratamento na origem do problema, e não somente remediam-se os sintomas. O entendimento do que é medicina e cura é amplo, pois é tudo que pode colocar-nos novamente em conexão, equilíbrio e harmonia com todas as nossas relações, com a vida, com o nosso entorno.
A revalorização emergente das práticas xamânicas e das medicinas e espiritualidades ligadas a Terra nos chega impregnada desta herança e vai de encontro a toda situação em que vive o planeta.
O xamanismo abraçando e assumindo estes novos (ou seriam ancestrais?) valores e funções tem se mostrado, ao que parece, com uma função fundamental de auxiliar a mudança do paradigma da Humanidade. De substituir o modelo predatório da natureza, ineficaz para a própria raça humana, por um padrão de coexistência e respeito para com o planeta.
E é aqui que encontramos um ponto de intersecção, que deveria estar acima de qualquer desentendimento: a busca mútua de alternativas de cura, paz e conexão com a natureza.
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Pós-Graduada em Produção Cinematográfica, graduada em Comunicação Social e estudante de História pela PUC-RS. Representante no Brasil da Ong Comunidad Tawantinsuyu que busca a revalorização da medicina tradicional dos povos andinos. Fundadora e editora do portal Terra Mística – Xamanismo e Cultura Nativa. Pesquisadora do xamanismo, das culturas pré-colombianas e dos sistemas de medicina tradicional das Américas. Palestrante e focalizadora de cursos e oficinas vivenciais. Portadora de Chanupa – Cachimbo Sagrado.
menkaika@terramistica.com.br;
http://www.terramistica.com.br/
http://www.xamanismo.org/
http://www.comunidadtawantinsuyu.org/.

(**) A mesa redonda foi idealizada e organizada pela antropóloga Bia Labate, que prestou consultoria ao Primeiro Encontro Brasileiro de Xamanismo. Pretendia discutir os seguintes temas:
– Como definir o “xamanismo”?
– Qual seria o melhor termo para classificar as práticas contemporâneas?
– Quais são critérios que permitem classificar quais atividades são ou não “xamânicas”?
– Quais são as fronteiras e limites entre o xamanismo “tradicional” e o “contemporâneo”?
– Como lideranças ou xamãs indígenas vêem os xamãs brancos?
– Como os xamãs urbanos compreendem o discurso acadêmico que critica o “neoxamanismo”?
– Como separar “verdadeiros” e “falsos” xamãs?
– Que princípios éticos norteiam ou deveriam nortear as práticas xamânicas?

A mesa redonda foi coordenada por Léo Artése (Céu da Lua Cheia/ Vôo da Águia) e composta por:

1 – Carminha Levy (Paz Géia): A universalidade e a expansão do xamanismo
2 – Sthan Xanniã (Filhos da Terra) – Nativo ou nathus? O saber nativo
3 – Cyro Leãoo (Filhos da Terra): O xamã urbano e o retorno ao sagrado
4 – Clêudio Bueno (Pax): O xamanismo do século XXI
5 – Tatiana Menkaiká (Comunidad Tawantisuyu/ Terra Mística)- Xamanismo e espiritualidade nativa (presença virtual – texto lido por Bia Labate)
6 – Fabiano Maia Sales Yawabané Huni-Kuin (estudante da pajelança Kaxinawá): Huni Mukaiá – Os pajés Huni-Kuin
7 – Wiannã (curador Kariri Xocó/ Filhos da Terra): Existem falsos xamãs?

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