Texto e fotos: Flaviano Schneider*

15-Mar-2009
De volta à aldeia sagrada

No local em que pela primeira vez viram um homem branco subir o barranco do rio Gregório, lá no alto, sob a liderança do cacique Biraci Brasil (Nixiwaka), os índios
Yawanawá estão reconstruindo a aldeia sagrada, onde outrora habitava todo o ‘povo do queixada’, sob a orientação de Antônio Luiz, o patriarca centenário e maior
pajé.

Biraci Brasil vem recebendo orientações dos espíritos da floresta e está conduzindo diretamente os trabalhos. Os primeiros movimentos foram iniciados em 2005. Na
margem esquerda estão sendo construídas as casas dos índios que irão habitar na aldeia enquanto na margem direita foi levantada uma oca, ligada por um trapiche a
outra ampla casa, todos cobertas por palha de palmeiras, abundantes na região. Ali, Biraci está iniciando uma nova fase na vida da aldeia. A terra é abençoada e
rica para quem vive na floresta. Muita caça, muito peixe, terra fértil, rica biodiversidade, pouco carapanã, pouca mutuca e só para não dizer que é o paraíso tem
o danado do pium, que incomoda, visitantes, é claro, pois os índios convivem em harmonia com eles. O clima é agradável. À noite sempre faz frio. Nesta época, muita
chuva.

Segundo Bira narrou, seu povo já teve o tempo em que vivia unido em uma só aldeia. Vieram então os caucheiros peruanos, depois os seringalistas brasileiros, com
a tentativa de escravização material para obtenção da borracha enquanto uma tentativa de escravização espiritual era executada pelo grupo evangélico norte americano
New Tribes. Houve a demarcação da terra, os grandes projetos econômicos com o nome Yawanawá, o início da recuperação da cultura, dos costumes e da espiritualidade.
“Agora começa uma nova era” afirma o cacique.

A aldeia sagrada será um local onde os jovens irão aprender a andar na floresta, conhecer a floresta, suas ervas, os hábitos dos animais, os rios e seus afluentes.
Grupo de alunos com seus professores irão à aldeia sagrada para aprender tudo isso e ainda a arte da cerâmica, as tradições, as brincadeiras, as comidas, etc. Biraci
quer se embrenhar na mata com o povo, aproximá-lo cada vez mais da floresta e esquecer que, recentemente, muitos estavam se voltando para as cidades, iludidos. Os
estudantes universitários – 11 deles estão fazendo faculdade em Rio Branco e Tarauacá – mas o destino é retornar à aldeia e aplicar os conhecimentos adquiridos.

E, finalmente, o mais importante: a aldeia sagrada será um local, de busca espiritual, um centro de formação espiritual onde será permitida a entrada de pessoas
de todo o planeta, de grupos de todas as linhas espiritualistas, que venham se apresentar e conhecer a forma Yawanawá de espiritualidade. Segundo Biraci, não lhe
interessa mais os grandes projetos econômicos, apenas pequenos projetos que tragam o bem estar de todos que estiverem na aldeia sagrada e os que lá habitam. Seu
protetor espiritual nesta batalha é o velho ancestral Antônio Luiz com quem Biraci mantém contato mediúnico.

Conta Biraci que, antes de morrer, Antônio Luiz disse para seu povo que nunca deveria sair daquele local, que nunca se separassem e nunca parassem de beber Uni,
a bebida sagrada. O corpo de Antônio Luiz está enterrado na aldeia sagrada, mas em local muito reservado aonde só vai quem é convidado.

Antônio Luiz também deixou dito que sempre que bebessem Uni os índios fossem até seu túmulo e deixassem um pote de Uni, para ele beber também. Deveriam deixar também
um pouco de rapé de tabaco, planta utilizada amplamente em processos de cura e também na busca espiritual, entre os Yawanawá.

O povo Yawanawá fez exatamente o contrário, abandonou a aldeia mãe, surgiram várias aldeiazinhas, embora a primeira delas, a Nova Esperança, seja de longe a mais
importante e com maior número de moradores, mais da metade do total. O Uni praticamente foi banido, cerca de 90% dos Yawanawá se tornaram ‘evangélicos’ no final
da década de 1980 sob a batuta dos missionários do New Tribes, que consideravam o Uni ‘coisa do diabo’ e praticamente proibiram seu ritual. Também proibiram a língua
nativa. Os índios passaram a ‘ter vergonha de andar nus’. Os missionários ficaram 30 anos até que foram expulsos pelo cacique Bira, na época em que retornou de sua
jornada no mundo do branco no final da década de 70. Em 1982, Bira começou a construção da aldeia Nova Esperança. Em 2005, começaram os trabalhos na aldeia sagrada
e no dia 22 de fevereiro de 2009, uma data histórica, o retorno do Uni e do Mariri ao terreiro da aldeia sagrada pela primeira vez depois de 27 anos.

 

O juramento do Muká
O terreiro sagrado do Muká é um lugar especial dentro da aldeia sagrada. Lá existe uma planta denominada Rarê Muká, a mais sagrada dentro da cultura Yawanawá. É
uma planta simples, rasteira e muito rara. É também um pajé, simbolizado materialmente pela planta. Ela não é cultivada. Surge praticamente somente no terreiro sagrado
e é quem cuida da folha Kãnikauá. O terreiro sagrado serve como retiro espiritual para formação de pajés, para dietas como a da caiçuma, do jenipapo e para fazer
o ‘Juramento do Muká’ ou Juramento do Rarê’, o ato mais sagrado da cultura Yawanawá. Dez índios Yawanawá já fizeram o juramento na fase moderna. O juramento tem
geralmente uma finalidade específica, como por exemplo, tornar-se um curador com plantas, mas, em seu sentido mais sagrado significa: ‘Seguirei o criador no meu
caminho, nunca me desviarei’. A dieta é dura, muita coisa não se pode comer, nada de relações sexuais, nem sequer dormir com mulher na rede, só comer comida preparada
especialmente para o pretendente ao juramento. O velho pajé Yawá tem uma filha epiléptica de 14 anos e resolveu fazer a dieta do Muká, juntamente com a esposa, Helena,
com a finalidade de curá-la. Segundo a tradição, os pais fazem a dieta pela criança ou junto com ela. O Juramento do Muká é o último recurso para cura de doenças
difíceis. Quando Yawá iniciou a dieta, convidou alguns estudantes de pajelança para entrar com ele, quatro se habilitaram, mas, na hora, três desistiram por acharem
que ainda não era o momento e apenas o índio Nãinawa, que trabalha como enfermeiro da Funasa há 13 anos, topou a parada e já está há um mês em dieta. Outro detalhe
importante é que os demais índios cuidam da família daquele que está na dieta do Muká. Não deixam faltar nada para sua esposa e filhos, para que o estudante possa
se dedicar integralmente à sua dieta.

Nãinawa é um índio especial. Faz uma dieta para se curar de uma enfermidade e para alcançar conhecimento de plantas medicinais, e tem como professor o velho Yawá.
Como enfermeiro da Funasa vai incluir no seu trabalho diário o conhecimento adquirido e já está se tornando um importante aprendiz de pajé, confeccionador da lança
sagrada da cultura Yawanawá (mustanti pastí) e rezador de grande eficiência. No terreiro sagrado também está plantado o Uni (cipó) e já existem vários canteiros
de folhas Rainha.

O terreiro sagrado tem três cabanas construídas para os que estão em dieta. Segundo Bira, o terreiro é ‘forte demais’ quando se toma Uni e o próprio Yawá prefere
beber a bebida dentro das cabanas, embora o cacique não descarte a possibilidade de fazer um trabalho com Uni no próprio terreiro sagrado. Quase no fim das atividades
na aldeia sagrada o antropólogo Terry Aquino que é casado com uma índia Yawanawá foi o primeiro branco a obter permissão para fazer o Jurmento do Muká. A esta altura
ele está começando a fazer sua dieta.

 

A mensagem do Bira
Durante os sete dias houve várias palestras do Bira e do Yawa contando as histórias dos antepasssados, os sonhos, mensagens para a humanidade. Num dos dias, Bira
disse: “A floresta preserva a nossa vida e garante nossa sobrevivência. Precisamos ter muito cuidado com ela. É difícil de cuidar de um território devido à pressão
nacional e internacional.

Desenvolvimento para o homem significa sacrificar a floresta. Vamos resistir enquanto tivermos força. Vocês são convidados a participar do movimento de preservação
da natureza, somos os jardineiros deste jardim natural”.

Antes de encerrar é preciso falar de Putany, a esposa do Bira, a primeira pajé do mundo Yawanawa. Ela canta, reza, aplica, rapé e também recebe guias. Sua presença
é de uma nobreza sem par. É uma fortaleza espiritual. O povo Yawanawá está em boas mãos e o futuro vai contar melhor o ressurgimento espiritual do Povo do Queixada,
o animal mais solidário da floresta, que anda sempre junto. (Repórter da Agência de Notícias do Acre)

 

Índios estrangeiros
Os estrangeiros participantes desta jornada têm, todos, formação espiritual. Il Jan de Ghier nasceu na Holanda e mora na Noruega. Faz arte moderna, constrói casas
com materiais recicláveis, faz exposições de esculturas na Escandinávia e dá palestras em toda Europa. Dirige com a esposa um círculo de Ayahuasca denominado Estrela
do Norte, no Norte da Noruega. Participou intensamente de todas as atividades com Uni, Daime, rapé, pinturas com jenipapo e atividades na floresta.

Jaana Hietasola nasceu na Finlândia e mora atualmente na Suécia. É professora de Ioga na tradição Saeraswati, uma das doze principais tradições do Hinduísmo. Para
ela, o Daime e o Ioga se completam. Também participa de grupos de estudos de Ayahuasca na Europa.

Bjorn Mattsson nasceu na Suécia onde sempre morou. Foi diretor por 25 anos de uma indústria de panificação, mas abandonou tudo pela alternativa espiritual. Há 15
anos tem formação Sufi e trabalha com shamanismo de índios da América do Norte: os Blackfeet que habitam o Canadá e Norte dos EUA e o povo Hopi que vive no Novo
México, Sul dos EUA. Participa de círculos de Ayahuasca em toda a Europa e posssui uma pequena reserva florestal na Suécia, denominada ‘Santuário da Floresta’.
Maarit Bredsen nasceu e vive em Oslo, a capital da Noruega, trabalhando como psiquiatra em hospital. É estudante de várias linhas de shamanismo europeu e sul americano
já tendo participado de pajelanças com os índios Kaxinawá.

Nova esperança: o ponto de partida
 
 
A aldeia Nova Esperança foi a primeira surgida com a consolidação da terra demarcada. Hoje é dirigida por Nani, enquanto Bira está empenhado na construção da aldeia.
Nani é o braço direito de Bira e o segundo cacique geral. Bira conta ainda, para guiar o povo, com um grupo de guerreiros mais adiantados na vida espiritual, sua
companheira Putany, primeira mulher pajé do povo Yawanawá, o velho pajé Yawa, Kuni, Tikã e o Manoel, fabricante do rapé sagrado, fiel companheiro e mais um grupo
de leais guerreiros. Nesta aldeia é realizado o Festival Yawa e ela continuará sendo o centro das decisões políticas, econômicas sociais e culturais. Ela é a base
ainda hoje da implantação da aldeia sagrada, que está situada cerca de uma hora acima de bote (motor de popa). Quando há um mutirão, a Nova Esperança fica quase
deserta. O trabalho é intenso e são mais de 300 índios envolvidos. Foi feito um grande mutirão na aldeia sagrada,mas uma enorme alagação acontecida em janeiro fez
com que os índios perdessem o arroz. Esperavam colher seis toneladas e colheram apenas uma. Mas, imediatamente plantaram no local cinco mil pés de banana. Biraci
já está fazendo o planejamento para um grande jardim de árvores frutíferas nas duas margens.
No período da exploração por parte de seringalistas a aldeia sagrada ficava dentro da área desmatada do Seringal Caxinauá. Chegou a haver cerca de 50 hectares desmatados
com criação de gado. Após a demarcação da terra com a saída dos seringalistas a natureza se regenerou de forma surpreendente, uma mata secundária muito rica já está
formada e praticamente não se nota diferença para a mata original, a não ser claro pela falta de árvores centenárias. A terra é ótima, três pés de uma variedade
de macaxeira, chamada de ‘mulatinha’, são suficientes para encher um saco, daqueles de 60 quilos.

O Povo Yawanawá é tradicionalmente um povo mais caçador que pescador e em suas terras sempre há fartura de proteína animal. Dentro de uma tradição de total respeito
pela natureza, seus caçadores fazem caçadas coletivas ou individuais e suas caças preferidas são a anta, o veado, o porquinho (caititu) e o queixada. E também algumas
aves, muito apreciadas pelas mulheres índias, como as nambus, cojubins e outras. O milho é muito apreciado. A macaxeira reina soberana, cozida, assada, em forma
de farinha, como caiçuma está presente no dia a dia.

Se por um lado, o cacique Bira foi escolhido para dirigir o povo Yawanawá, devido à sua bagagem espiritual e está também preparado para agir no ‘mundo do branco’,
o povo Yawanawá é o povo que todo chefe pediria a Deus. Os índios não discutem asperamente, conversam sempre amigavelmente, não perdem o tempo com besteiras nem
com conversas inúteis. As crianças são extremamente educadas, não vivem com molecagens, estampam felicidade nos olhos em suas brincadeiras, não mexem nas coisas
de ninguém. Na aldeia sagrada não entra televisão. Bebida alcoólica – nem pensar – é expressamente proibida, isto tudo já a partir da aldeia Nova Esperança.  

Muitas decisões são tomadas na oca da aldeia em conversas logo no início do dia. O cacique Bira considera a televisão um mal: “Espalha o espírito do homem” – diz.
A cachaça foi banida e apenas nas aldeiazinhas de baixo, ainda existem consumidores, que por sinal também são os que mais procuram as cidades e ainda resistem à
revolução espiritual fomentada pelo cacique.

Uni histórico

No dia 22 de fevereiro, um domingo, o cacique pajé Bira fez o primeiro trabalho com Uni na aldeia sagrada, depois de ter sido interrompido por 27 anos. Ele convidou
27 pessoas, a maior parte de extrativistas e agricultores da região de Rodrigues Alves e do Rio Croa, todos daimistas, quatro estrangeiros, estudantes de várias
linhas da bebida Ayahuasca, Emílio Dias, daimista paulista, exímio violonista tendo sido a logística da viagem da comitiva coordenada pelo Centro de Estudos da Ayahuasca,
Flor de Jurema, centro daimista do Rio Croa, que tem em sua direção Davi Nunes de Paula e Fabiana de Paula e é dirigido espiritualmente pela cabocla Jurema. Quanto
a mim, fui convidado em sonho pelo Bira para ir à terra Yawanawá e finalmente a oportunidade surgiu. A caravana permaneceu na aldeia sagrada durante sete dias.

Unidaime ou Daimeuni?
Biraci abriu a porta da aldeia sagrada para o primeiro grupo espiritualista dentro do centro de formação espiritual e o escolhido foi a Doutrina do Santo Daime,
aos quais se juntou o grupo de ayahuasqueiros da Escandinávia e permitiu um feitio do Daime, nos moldes dos ensinamentos do Mestre Irineu. O grupo visitante de daimistas
e ayahuasqueiros, com a participação dos índios, construiu uma casinha de feitio, com fornalha de três bocas. O local fica situado a cerca de um quilômetro da aldeia
sagrada em local no meio da floresta perto do Igarapé Caxinauá. O local também servirá de apoio ao Festival Yawa. No ano passado, durante o festival Yawa, alguns
visitantes participaram de encontros onde foi utilizada Ayahuasca e muitos ‘passaram mal’ como se diz nas igrejas daimistas. Segundo Bira, a bebida utilizada veio
de diversas procedências e por isso o resultado. De agora para frente, nos festivais Yawa será utilizada unicamente a bebida feita especialmente para a ocasião,
seja a Ayahuasca feita nos moldes do Santo Daime, ou o Uni feito de forma tradicional.

Para o povo Yawanawa, os sonhos são tão importantes como a vida ‘acordada’ ou mais. É o momento de conversar com Deus. Os dois caciques, Bira e Nani tiveram sonhos
com o Mestre Irineu e com o Padrinho Sebastião. Antes de tomar a decisão Bira reuniu seu povo mais chegado, em roda de conversa, um hábito social Yawanawa. Houve
alguém que argumentou, conforme narração de Bira: “Será que vamos agora abrir um centro de Daime, vamos virar daimistas?.
Quando então Bira explicou que os Yawanawa têm sua própria linha, tem seus próprios cânticos com os quais podem cantar quatro noites seguidas sem repetir e possuem
o Mariri do Uni, com dança e cântico. Alguns hinos são cantados na língua falada nas aldeias, mas quando o Mariri está acontecendo também existe uma língua espiritual
que aparece unicamente nestes momentos e muito poucos compreendem. E os cânticos conduzem a “miração” como dizem os daimistas.

Também é importante citar, o Jagube (cipó) e a folha Rainha utilizados no primeiro feitio de Daime na terra Yawanawa foi levado dos jardins do rio Croa, cuja comunidade
é a maior reflorestadora de Jagube e Rainha no vale do Juruá, com milhares de pés das duas plantas. O acordo firmado inclui também a cessão de mudas do Croa de suas
variedades e vice-versa.

Para o cacique Biraci é este tipo de convívio que ele quer daqui para frente. Amigos que o ajudem a reconstruir a aldeia sagrada, junto com seu povo. Bira ficou
especialmente satisfeito, pois é seu desejo que cada vez mais os Yawanawá se voltem para a tradição do Uni e durante os dias de feitio, até alguns índios que nunca
tinham bebido Uni, tomaram Daime e gostaram. No momento não resta dúvidas na aldeia de que o povo do Daime é irmão, quase como se fosse outro povo indígena e, aliás,
o sangue índio corre nas veias da maioria deles. Segundo Bira não interessa receber na aldeia pessoas com preocupações financeiras ou políticas, isto fica para a
Nova Esperança. “Na aldeia sagrada só queremos quem nos alimente o espírito. Aqui é nossa aldeia mãe. Olha a floresta. Debaixo dela habita um povo. Aqui andamos
e vivemos como o criador nos criou. Tudo começou aqui” – disse.

 

A linha Yawanawá
Antonio Luiz tinha em sua língua original oito nomes. É costume Yawanawá chamar as pessoas por vários nomes, como forma de homenagear os mais diversos parentes seja
a mãe, o pai, os tios, as tias, etc. Segundo alguns cálculos, ele viveu 116 anos e dirigiu o povo por 107 anos. Como chefe espiritual recebia cinco guias. Biraci
está trabalhando para receber os mesmos guias, um pedido especial que fez ao mestre espiritual e já vem sendo orientado por eles. O pajé mais velho da aldeia é o
Yawarani, chamado simplesmente por Yawá. É pajé desde os 50 anos e hoje tem cerca de 90. Ele canta – e muito bem -também, mas suas especialidades são a reza e os
trabalhos com as plantas medicinais. É uma relíquia viva e suas rezas na língua nativa, acompanhados de sopros, são requisitadas por todos. Também recebe duas entidades.
Outro pajé cantador, Tatá, mora numa aldeia do baixo rio e não participou das atividades.

Muitos dos cânticos tinham se perdido e o cacique Bira é o canal donde eles vêm sendo resgatados. No ano 2000 recebeu o cântico ‘Kanarô txereeteintê’, durante trabalho
com Uni, ocasião em que o próprioYawa chorou de emoção. É um hino à criação, fala da arara amarela (Canindé), o pássaro que voa mais alto da espécie, sai de casa
e voa para comer em outros rios, levando a mensagem de sua existência e volta para dormir em casa. Para Biraci o hino é também o símbolo da nova era em que o povo
está entrando e simboliza as boas vindas a todas as manifestações de Deus no planeta Terra. Um grande presente no mariri do Uni para um convidado é escutar o hino
do Kanarô e ver inserido nele seu nome, como um chamado de boas vindas. O trabalho do Uni conduz às luzes, às mandalas coloridas e tantas belezas.

 

A preparação do Uni
Foi tudo muito mágico para mim. A participação em toda essa história, essa jornada de pajelança e espiritualidade. Algo inesquecível. Biraci convidou-me e ao Bjorn,
um dos estrangeiros, para ajudá-lo a preparar o Uni. Pegamos um pouco do Jagube trazido pelo povo do rio Croa e com ele rumamos para o terreiro sagrado, dentro da
aldeia sagrada, onde há um jardim da planta que na cultura Yawanawá é a melhor para fazer o Uni, a folha Rainha Kãnikauá, ‘a dona das cores’. Sem qualquer planejamento,
Biraci convidou-me e ao Bjorn para colhermos as Kãnikawá.  Em seu jardim há outra variedade plantada, mas Biraci esscolheu aquela que em sua tradição é a rainha
de todas. No final, tanto o cipó trazido quanto as folhas colhidas foram exatamente a quantidade necessária para o tamanho da panela do Bira. O cacique macerou o
cipó com um pedaço de madeira, fez uma pequena fogueira e colocou a panela suspensa sobre ela, escorada num pedaço de pau.

O cozimento durou cerca de três horas resultando no final em cinco litros de Uni. Um litro foi presenteado ao Yawá, cerca de 250 ml foi levado ao túmulo do patriarca
e o restante foi levado já à tardinha para a aldeia sagrada onde aconteceria o Mariri.
Antes, porém, durante a tarde, depois de uma providencial sessão de rapé para limpeza, um grupo especialmente convidado de oito pessoas (pela primeira vez com um
grupo de fora) aconteceu o momento de levar a oferenda de Uni e rapé para o Antônio Luiz, conforme seu pedido, para que ele também usasse as plantas sagradas naquele
dia. Na noite do trabalho, Bira entrou em contato mediúnico com Antônio Luiz e este lhe disse que não iria subir até a aldeia sagrada, iria ficar no terreiro sagrado
‘cuidando do seu Muká’, mas em outra ocasião, mais à frente, ele vai subir e se manifestar diretamente no terreiro.
 
 
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