Por Maíra Dias (*)

escrito especialmente para este blog

            Em dezembro de 2017 povos indígenas ayahuasqueiros brasileiros do estado do Acre, Brasil, se reuniram na Yubaka Hayrá – I Conferência Indígena da Ayahuasca, no Território Indígena Puyanawa, município de Mâncio Lima. Uma conferência de “índio pra índio” como afirmava Francisco Pyãko Ashaninka, coordenador da Organização dos Povos Indígenas do Rio Juruá – OPIRJ, buscando a “sabedoria dos mais velhos”, como descreveu Biraci Brasil, como é conhecido o cacique Biraci Nixiwaka Yawanawá, buscando alinhar questões relativas a esta bebida ancestral comum a todos eles. Apolimas-arara, ashaninkas, huni kuins, jaminawas, jaminawas-arara, kuntanawas, nawas, noke kois, nukinis, puyanawas, shanenawas, shawãdawas e yawanawás reunidos durante três dias com dois frascos de ayahuasca sobre a mesa dos debates, disponíveis a quem ela quisesse consultar.

            A pauta proposta foi ampla e abrangeu a importância da ayahuasca como base das culturas indígenas acreanas, as experiências de intercâmbio e divulgação desta medicina indígena dentro e fora do Brasil, suas canções tradicionais, o manejo para sustentabilidade do cipó e da folha, a resolução CONAD 01/2010 (que regulamenta o uso religioso da ayahuasca no Brasil) e suas implicações na circulação de pajés com as medicinas tradicionais, e o processo de patrimonialização da ayahuasca. Assuntos condutores para que se debatesse a “realidade da espiritualidade da ayahuasca”, como nomeou Biraci Brasil.

Para nossas civilizações a medicina sagrada é a fonte de nosso conhecimento, identidade e cultura desde a criação do primeiro homem, por isso, sempre está presente em nossos cantos e histórias, assim como faz parte de nossas relações antigas entre povos. As nações indígenas ayahuasqueiras temos relações diplomáticas e espirituais milenares, motivo pelo qual a 1ª Conferência Indígena de Ayahuasca (Yubaka Hayrá) pode se considerar um marco dentro da história contemporânea indígena. (Daiara Tukano, 2017)

            Nos encaminhamentos trazidos em seu documento final, chamado de “Carta de Recomendações”, está o desejo desse debate coeso entre os povos indígenas acreanos ao proporem pautas a serem discutidas na base, isto é, em cada aldeia, para que na próxima conferência esses temas possam receber providências. Recomendam assim que:

Cada povo deverá se posicionar coletivamente e em seus encontros internos deverão refletir acerca das questões relacionadas abaixo:

· Como era o uso da medicina tradicional no passado, o repasse e a proteção do conhecimento no contexto interno indígena.

· Como é o uso da medicina tradicional, o repasse e a proteção do conhecimento no contexto atual, e como refletem sobre as mudanças observadas nos usos tradicionais.

· Como percebem a situação dos atuais intercâmbios com não indígenas e como está sendo zelado o conhecimento. Pensar sobre quais são as formas de proteção do conhecimento sobre as medicinas tradicionais considerando as mudanças decorrentes desta expansão.

· Possibilidades e limites para compartilhar os conhecimentos tradicionais com não indígenas. Refletir sobre até que ponto é benéfico ou ameaçador transmitir estes conhecimentos para não indígenas e qual será a forma de diálogo e compartilhamento externo. (Carta de Recomendações, 2017)

            Assim, como disse Siã Kaxinawá, liderança Huni Kuin, em sua fala de abertura, foi um chamado à responsabilidade para que estes povos ayahuasqueiros desde “tempo imemoriais” como descreveu Biraci Brasil, possam se organizar para proteger os conhecimentos que zelam desde sempre.

Se vocês forem paciente de entender e ouvir, nós podemos contribuir ainda… por ser uma minoria de número mas somos donos de uma civilização, de um conhecimento do tamanho dessa floresta. Olha o tamanho da Amazônia, olha o tamanho do verde que tá em cima dessa terra, pois nós somos conhecedor delas. Esses homens aqui, que o Congresso não respeita, que nenhuma autoridade do mundo respeita, mas quer vir usar ayahuasca, rapé, sananga, tudinho de medicina, patenteando, estudando. E nós, que somos donos? Que nasceu de nós, e que vivemos até hoje no meio delas? (Biraci Brasil, 2017)

 

Contextualizando

Fotos Ramon Aquim

            Esta conferência se destaca por ter sido a primeira vez que esses povos, que têm ayahuasca na sua ancestralidade e no cerne do seu modo de vida, se reuniram para discutir questões-chave do uso nas aldeias, seu manejo e também questões da interface com os não indígenas, como a circulação com as medicinas dentro e fora do Brasil e a patrimonialização da ayahuasca no Brasil que vem sendo discutida no âmbito do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional desde 2008. E os não indígenas presentes estavam apoiando, registrando ou servindo de “informantes”, esclarecendo sobre os pontos demandados pelos indígenas: foi de fato uma conferência deles e para eles.

            A decisão por trazer encaminhamentos voltados para suas bases na Carta de Recomendações demonstra a maturidade que o movimento indígena acreano e brasileiro desenvolveu, já que eles entendem que a dinâmica necessária é consultar as comunidades para que o posicionamento seja mais uniforme. Não que haja ilusão de unicidade, sabendo que a população indígena acreana está em cerca de 20 mil pessoas – e que todas as etnias acreanas tem ayahuasca nas suas referências espírito-culturais.

            Este evento foi realizado pelas Organizações Indígenas do Juruá (Organização dos Povos Indígenas do Rio Juruá – OPIRJ, Organização dos Povos Indígenas de Tarauacá – OPITAR, Organização dos Povos Indígenas do Rio Envira – OPIRE e Associação dos Seringueiros Kaxinawá do Rio Jordão – ASKARJ) com apoio da Regional Juruá da FUNAI e do Instituto Federal do Acre – IFAC, mas podemos ver seu embrião ainda na Carta Aberta dos Povos Indígenas Acreanos a II Conferência Mundial da Ayahuasca (Nixi Pae, Huni Pae, Uni Pae, Kamarãbi, Kamalanbi, Shuri, Yajé, Kaapi…) ocorrida em 2016, em Rio Branco – Acre. Neste documento eles não só requereram mais participação nas discussões mundiais acerca desta bebida, demandando reconhecimento dos seus lugares de importância como zeladores e estudiosos destas plantas sagradas; mas demonstravam as articulações internas que se davam e se mostraram nesta I Conferência Indígena da Ayahuasca. Esse alinhamento entre seus povos, tão potente exatamente pela sua diversidade, por este conjunto de ancestralidades ali reunidos, pode trazer mudanças significativas ao campo ayahuasqueiro brasileiro e mundial.

            Yubaka Hayrá são palavras em hatxá kuin, a língua Huni Kuin*, que traduzidas dizem “conversando junto sobre o que é certo”. Elas serviram de nome à I Conferência Indígena da Ayahuasca e traduzem a essência do seu espírito. Parentes reunidos em uma grande assembleia alinhando e refletindo sobre o que é o certo nestes contextos tão mutantes sobre aquilo que lhes é mais caro, e não é sobre uma bebida ou duas plantas sagradas – é o que elas são dentro de suas culturas, o quanto essa medicina faz parte de quem eles são.

            Estão disponíveis no canal Crônicas Indigenistas no Youtube algumas das falas realizadas na Yubaka Hayrá. São registros de posicionamentos fundamentais para quem desejar se inteirar diretamente com os protagonistas. Também é possível escutar no canal Crônicas Indigenistas – Música Indígena várias gravações realizadas durante as cerimônias realizadas na abertura e no encerramento da Conferência. São cantos tradicionais e do que está sendo chamada da “haux music”, termo utilizado no filme ‘Xinã Bena Beisikit Xarabu’ de Dedê Maia, exibido conjuntamente com episódios da série Nokun Txai – Nossos Txais dirigida por Sérgio de Carvalho durante a Yubaka Hayrá, para designar as canções indígenas acompanhadas de violão e outros instrumentos. O vídeo “Tarondê – Canto Yawanawá”, por exemplo, compila imagens da Conferência e uma gravação ao vivo realizada na Cerimônia de encerramento.

            Foi, de fato, um evento de grande dimensão cerimonial, e não poderia ser diferente pelo grau de sacralidade que a ayahuasca tem nessas comunidades indígenas que ali estiveram representadas. São muitos seus conhecimentos acumulados na “escola do dia-a-dia, com a nossa família” como trouxe Biraci Brasil.

Eu não preciso de nenhuma escrita científica me contar quando começou, porque conta a minha história que o uni nasceu do coração do nosso rei, de cima do coração do nosso rei, do corpo humano. (Biraci Brasil, 2017)

Fotos Ramon Aquim

            Este texto se propôs a ser um comunicado, um registro de quem viu a potência do que foi e está por vir. E como bem sintetizou o Professor Domingos Bueno Silva em texto publicado no blog Crônicas Indigenistas, a Yubaka Hayrá “abriu espaço para que emergisse o que é mais fundamental nessa medicina indígena sagrada, que é sua capacidade de transcender as barreiras da estreiteza humana”. Aguardemos, então, os próximos passos. Sabendo que na II Conferência Indígena da Ayahuasca, prevista para agosto deste ano, outras barreiras certamente serão transcendidas.

 


 

*Errata: originalmente publicamos que o hatxá kuin teria sido transformada em segunda língua oficial do estado do Acre, de acordo com notícias da imprensa em dezembro de 2017. Mas, até a presente data, não houve ainda oficialização desta proposta.

 


Fotos de Ramon Aquim divulgadas pela página do facebook da Rádio Yandê


 

 

(*) Maíra Dias é Doutoranda e Mestra em Ciências das Religiões (2015) pela Universidade Federal da Paraíba/UFPB, com a dissertação “Processos de patrimonialização no campo religioso brasileiro: o caso do Santo Daime“. Museóloga e pedagoga. Integrante do Grupo de Pesquisa RAÌZES (UFPB) e do Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre Psicoativos (NEIP).

 

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