Flávia Zacouteguy Boos, MS.

As relações que as mulheres estabeleceram com os psicodélicos ao longo da história é extremamente diversa, como seria de se esperar. Tais relações passam pelo consumo dessas substâncias com diferentes propósitos – cura, autoconhecimento ou “recreação” –, condução de cerimônias psicodélicas e produção de conhecimento – seja em espaços formais, como pesquisadoras em universidades, ou para além desses muros. Em homenagem ao Dia Internacional da Mulher, e ainda com gostinho de Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência (11 de fevereiro), decidi escrever este texto com o objetivo de destacar algumas mulheres envolvidas com o caminhar histórico dos psicodélicos no cenário mundial, tentando aproximar essa história da nossa realidade, com especial atenção para a ciência biomédica produzida no Brasil.

Resgatando o uso tradicional, gostaria de destacar a responsável por apresentar a psilocibina ao mundo ocidental. Maria Sabina (1894–1985) foi uma importante curandeira pertencente aos povos indígenas Mazatecas do estado de Oaxaca, no México. Conduzia cerimônias com propósitos de cura e adivinhação através do uso de cogumelos psicodélicos do gênero Psilocybe, conhecidos na tradição Mazateca como “carne dos deuses” (Teonanácatl). Foi através dela que, pela primeira vez na história registrada, um ocidental teve uma experiência psicodélica com esses fungos, em 1955. O relato foi publicado na revista norte-americana Life dois anos depois e posteriormente a psilocibina foi isolada e identificada como o princípio ativo responsável pelos efeitos alteradores de consciência, tendo Maria Sabina experimentado sua versão sintética e, supostamente, comprovado que ali havia o “espírito dos cogumelos”.

Amanda Feilding é uma condessa inglesa e outro importante nome que, a partir de seu contato com LSD na década de 1960, percebeu o potencial dos psicodélicos para melhorar a qualidade de vida das pessoas. Em 1996, criou uma fundação que depois veio a se chamar Fundação Beckley (1998), cujo objetivo é financiar pesquisas clínicas e de neurociências com utilização de tecnologias de ponta para entender como os psicodélicos alteram o funcionamento cerebral e cognitivo, explorando seus potenciais terapêuticos. Além de financiar pesquisas de alta qualidade, ela tem importante contribuição intelectual em artigos científicos, livros do campo psicodélico e na discussão que envolve a reforma da política de guerra às drogas, acreditando que “A melhor maneira de superar o tabu e reintegrar os psicodélicos na estrutura da sociedade é realizando as melhores pesquisas científicas”. Portanto, ela é uma das personalidades fundamentais para os avanços científicos durante o renascimento da pesquisa psicodélica que estamos atualmente testemunhando.

Chegando mais próximo da realidade brasileira, sem dúvida uma das pesquisadoras com grande destaque no campo de psicodélicos é a antropóloga Beatriz Labate. Atualmente, é professora colaboradora na Califórnia, Estados Unidos. Beatriz investiga temas que incluem plantas psicodélicas, em particular a ayahuasca, em contexto ritual e religioso, e políticas sobre drogas. Seu currículo e contribuições na área são extensos. É fundadora e diretora executiva do Instituto Chacruna de Plantas Psicodélicas Medicinais, organização ímpar na produção e divulgação de conhecimento sobre psicodélicos, que busca estabelecer diálogos entre o uso tradicional e a ciência. O Instituto Chacruna também cria espaços para debates fundamentais sobre diversidade de gênero e outros recortes – como étnico-raciais e de minorias sexuais – na área de psicodélicos. Aqui vale destacar o Fórum Mulheres e Psicodélicos (Women and Psychedelics Forum; 2018) e uma série de textos chamada Mulheres na História das Plantas Medicinais Psicodélicas (Women in the History of Psychedelic Plant Medicine Series), que busca dar visibilidade a algumas mulheres nesse campo. Existem outras com importantes contribuições sobre o campo nas ciências humanas. Pelo meu pouco conhecimento nessa área, já que não é a que estudo, preferi dar especial atenção à pesquisa biomédica.

O Brasil é motivo de orgulho e tem recebido destaque mundial na produção de pesquisas biomédicas com psicodélicos. Na segunda onda dessas pesquisas, especialmente a partir de 2010, o Brasil é o terceiro país que mais produziu estudos de impacto em uma lista que ranqueia aqueles com maior taxa de citação anual (Lawrence et al., 2021). Dos cinco estudos brasileiros, quatros investigaram os efeitos antidepressivos da ayahuasca. Participa de dois trabalhos a jovem pesquisadora Fernanda Palhano-Fontes, especialista em neuroimagem e atualmente engenheira no Instituto do Cérebro na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). O trabalho brasileiro mais citado – o sexto no ranking geral – foi fruto do seu doutorado e é pioneiro no estudo clínico randomizado duplo-cego na investigação dos efeitos da ayahuasca em pacientes com depressão resistente a tratamento (Palhano-Fontes et al., 2019; contamos um pouco sobre o estudo aqui). O estudo da Fernanda conta com uma equipe extensa, incluindo as duas próximas mulheres: Flávia de Lima Osório, psicóloga de formação e professora do Departamento de Neurociências e Ciências do Comportamento da Universidade de São Paulo (USP), e Nicole Leite Galvão Coelho, bióloga de formação e professora do Departamento de Fisiologia e Comportamento da UFRN. Ambas estudam os efeitos antidepressivos da ayahuasca. Flávia apareceu em quatro dos cinco estudos brasileiros do ranking e tem revisões da literatura sobre efeitos terapêuticos de psicodélicos clássicos. Nicole busca biomarcadores relacionados à depressão e realiza estudos com ayahuasca tanto em modelos animais como em seres humanos.

Se por um lado a pesquisa biomédica brasileira sobre psicodélicos tem destaque no cenário mundial, por outro apresenta bem menos cientistas mulheres em comparação aos homens. Esse desbalanço entre gêneros parece ocorrer especialmente durante a progressão na carreira científica, como exemplifica um relatório da USP, em que há equilíbrio entre gêneros na graduação e na pós-graduação, enquanto que as mulheres são apenas 15% dos professores titulares e ocupam 24% dos cargos de chefia na instituição. Ainda, a pandemia pode acentuar essas desigualdades, como já havia indicativo em abril de 2020 de que o home office teve maior impacto sobre a produção científica de mulheres do que a dos homens, o que segundo a autora do estudo pode refletir o envolvimento desigual com tarefas domésticas e cuidado dos filhos. Para além dos sérios prejuízos individuais, cabe refletir sobre como a baixa representatividade de mulheres em posições de poder influencia a produção de conhecimento na área de psicodélicos – questionamento levantado por Beatriz Labate, no Fórum Mulheres e Psicodélicos. Se estamos vivenciando a renascença da ciência psicodélica, faz sentido pensarmos que ela não será uma repetição do passado, que haverá maior participação feminina e, portanto, maior diversidade no olhar científico.

Ainda temos muito o que caminhar enquanto sociedade pela igualdade de gênero e justiça social; mas é bonito de se ver esse debate ganhando força e espaço em diferentes instâncias da sociedade, mesmo que esse seja um caminho tortuoso e com alguns retrocessos. Apesar desse texto não ter a pretensão de citar todas as mulheres envolvidas com pesquisa sobre psicodélicos na área biomédica e de ter uma série de limitações (por exemplo, não abordando importantes recortes, como étnico-culturais, sociais e de orientação sexual), ele busca dar visibilidade a algumas das protagonistas da história e da ciência dos psicodélicos, destacando o desbalanço entre gêneros nas pesquisas biomédicas desse campo no Brasil. Que neste 8 de março nós possamos refletir sobre isso e sonhar com uma sociedade onde haja mais mulheres produzindo conhecimento e ocupando espaços de poder e tomada de decisão.

Referências

Lawrence, D. W., et al. (2021). Trends in the Top-Cited Articles on Classic Psychedelics. Journal of Psychoactive Drugs. https://doi.org/10.1080/02791072.2021.1874573

Palhano-Fontes, F. et al. (2019). Rapid antidepressant effects of the psychedelic ayahuasca in treatment-resistant depression: a randomized placebo-controlled trial. Psychological Medicine, 49(4): 655-663. https://doi.org/10.1017/S0033291718001356

Pollan, M. (2018). Como mudar sua mente (Rio de Janeiro, RJ: Intrínseca).

Postado originalmente aqui.

Comments are closed.