Sob o chamativo título “Ayahuasca põe grávidas em risco”, o jornal O Globo, ao abordar as graves acusações de abuso que pairam sobre alguns gurus espirituais, sustentou a afirmação de que a ayahuasca traz risco às mulheres grávidas. Sem trazer mínimo embasamento científico que pudesse sustentar tal assertiva, a publicação ainda define a bebida como um “chá que causa malformação fetal”.

A ayahuasca, conhecida também como daime, vegetal, nixi pae, uni, yagé, dentre outros nomes, é uma bebida sacramental consumida ritualmente por dezenas de comunidades, indígenas e não indígenas, e seu uso ritualístico por grávidas é amparado por lei no Brasil.

Embora existam artigos demonstrando malformações em fetos de ratas grávidas, estes estudos são questionados por utilizarem um regime de uso que ultrapassa qualquer forma de consumo em comunidades ayahuasqueiras, uma vez que os animais foram submetidos à bebida de forma forçada durante 14 dias de suas gestações, que duram 21-23 dias.

Também se deve levar em conta que estudos com roedores não são automaticamente aplicáveis a seres humanos. Assim, não há qualquer estudo ou relato na literatura científica que comprove que a ayahuasca traga riscos a mulheres grávidas e seus filhos. Por outro lado, existe um conjunto de estudos com populações que usam ayahuasca mostrando índices de saúde iguais ou melhores do que da população em geral, tanto no caso de adolescentes quanto no de adultos.

Desse modo, as afirmações desprovidas de valor científico feitas por O Globo em relação à ayahuasca acabam desinformando as pessoas, e o jornal lamentavelmente perde a chance de contribuir para desvelar as acusações sobre os abusos – que precisam ser punidos – cometidos por líderes religiosos, para deslocar a discussão de maneira sensacionalista para a ayahuasca.

  • Ana Paula Lino de Jesus, linguista/antropóloga, UFRJ
  • Bia Labate, antropóloga, Chacruna Institute for Psychedelic Plant Medicines
  • Bruno Ramos Gomes, psicólogo, UNICAMP
  • Frederico Policarpo, antropólogo, UFF
  • Glauber Loures de Assis, sociólogo, UFMG
  • Isabel Santana de Rose, antropóloga, PPGAS/UFAL
  • Jacqueline Alves Rodrigues, antropóloga, UFMG
  • Lígia Duque Platero, antropóloga/historiadora, UFRJ
  • Lucas Maia, biólogo, UNICAMP
  • Luís Fernando Tófoli, psiquiatra, UNICAMP
  • Maria Betânia Barbosa Albuquerque, educadora, UEPA
  • Miguel Aparício, antropólogo, UFOPA
  • Rosa Melo, antropóloga, UnB
  • Sandra Lúcia Goulart, antropóloga, Faculdade Cásper Líbero
  • Saulo Conde Fernandes, historiador/antropólogo, SEMED-MS
  • Ana Gretel Echazú Boschemeier, antropóloga, UFRN
  • Camila de Pieri Benedito, socióloga, UFSCar
  • Juliana Nicolle Rebelo Barretto, antropóloga, UFPE
  • José Eliézer Mikosz, UNESPAR
  • Juliana Nicolle Rebelo Barretto, antropóloga, UFPE
  • Sidarta Ribeiro, neurobiólogo, UFRN

Mulheres acusam doula de prescrever chá que causa malformação fetal

Jornal O Globo, 28 Janeiro, 2019: https://oglobo.globo.com/sociedade/mulheres-acusam-doula-de-prescrever-cha-que-causa-malformacao-fetal-23407168

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