Evento paralelo ao Fórum Econômico Mundial anunciou renascimento de enteógenos

Além da ausência de neve, o convescote anual de ricos e poderosos na estação suíça de esqui teve neste ano outra novidade: a Casa de Psicodelia Médica de Davos (https:/docsend.com/view/wvhsxq2y9j5c8rpy). O evento no local durou seis dias (21 a 26 de maio) e não fazia parte da programação principal do Fórum Econômico Mundial, mas a semente dos enteógenos foi lançada no sistema nervoso central do capitalismo.

Riccardo Vitale, Joseph Mays, Beatriz Labate e Miguel Evanjuanoy em frente à Casa Psicodélica em Davos – Arquivo pessoal/Bia Labate

“Enteógeno”, algo como gerador do divino interno, é a denominação sanitizada do termo “psicodélico”, que evoca a contracultura dos anos 1960 e tem a vantagem de ser imediatamente compreensível. As empresas organizadoras, Energia Holdings e Tabula Rasa Ventures, não o evitaram, como preferem alguns pesquisadores e investidores no campo emergente, suavizando-o só com o qualificativo “médico”.

O adjetivo se refere ao renascimento dos psicodélicos para a medicina (https:/www1.folha.uol.com.br/blogs/virada-psicodelica/2022/04/revisao-nos-eua-destaca-urgencia-de-psicodelicos-na-saude- mental.shtml), como promessa de tratamento fármaco-psicoterápico para transtornos como depressão resistente, estresse pós-traumático e ansiedade. Banidos nos anos 1970, os compostos alteradores da consciência retornaram com ímpeto às publicações científicas a partir de 2000, com base em evidências cada vez mais robustas de benefícios terapêuticos dos psicodélicos (https:/www1.folha.uol.com.br/blogs/virada-psicodelica/2022/04/como-a-psilocibina-desata-no-da-depressao-por-ao-menos-3- semanas.shtml).

“Sabemos que, quando o público geral ouve ‘psicodélico’, pensa primeiro em ‘xamãs’ e ‘hippies’, mas o que esperamos mostrar ao longo de nossa série de uma semana é a legitimidade baseada em evidências por trás dos psicodélicos quando usados para tratamento num contexto clínico”, anunciou Marik Hazan, o investidor de risco por trás das duas companhias organizadoras, que se apresenta no Twitter como “antrofuturista”.

Por via das dúvidas, uma porta-voz da Energia ressalvou para o blog Dose, da Bloomberg, que “não haveria absolutamente nenhuma droga no local”.

Foi um encontro eclético. Não poderia faltar uma figura de proa como Rick (https:/viradapsicodelica.blogfolha.uol.com.br/?p=361)Doblin (https:/viradapsicodelica.blogfolha.uol.com.br/?p=361), da Associação Multidisciplinar para Estudos Psicodélicos (Maps, em inglês) e líder da iniciativa para tratar estresse pós-traumático com MDMA (ecstasy), que, no entanto, falou por teleconferência. Presente fisicamente esteve Amanda (https:/www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2019/11/como-uma-condessa-britanica-se-tornou-a-madrinha-dos- psicodelicos.shtml)Feilding (https:/www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2019/11/como-uma-condessa-britanica-se-tornou- a-madrinha-dos-psicodelicos.shtml), condessa britânica e madrinha dos psicodélicos à frente da Fundação Beckley.

Havia pesquisadoras, como Rachel Yehuda, do hospital Mount Sinai (https:/www.linkedin.com/feed/update/urn:li:activity:693716439565543833), e Monnica Williams, da Universidade de Ottawa. Havia militantes, como Miguel Evanjuanoy, da União de Médicos Indígenas do Yagé da Amazônia Colombiana (Umiyac), e Beatriz Labate, antropóloga brasileira do Instituto Chacruna (https:/chacruna-la.org/author/blabate/) para Medicinas Vegetais Psicodélicas, com sede em São Francisco (EUA).

Havia empresários engajados, como David Champion, da Maya Health, que em 2019 atuou na campanha para regulamentar a psilocibina de cogumelos “mágicos” na cidade de Denver (EUA). E havia Deepak Chopra, da Universidade da Califórnia em San Diego, autor best seller na área de meditação e defensor de psicodélicos.

Na volta de Davos, Yehuda manifestou no LinkedIn sua preocupação com o oba- oba em torno dos psicodélicos, que caíram nas graças de investidores de risco. “Foi desafiador lembrar as pessoas de que tais abordagens ainda não estão amplamente disponíveis e que ainda há muito trabalho a fazer para assegurar sistemas de administração seguros e equitativos, antes da futura regulamentação”, escreveu.

“Falamos sobre a necessidade de resistir a prometer demais e entregar de menos, sobre o imperativo moral de ser inclusivo, de lembrar as origens dessas abordagens, de evitar a colonização e a monetização dos psicodélicos para exclusão daqueles que podem não obter representação num lugar como Davos.”

Para Labate, também no LinkedIn (https:/www.linkedin.com/feed/update/urn:li:activity:6937527443037585409/), foi “uma ocasião fascinante em que pesquisadores acadêmicos, ativistas, líderes comunitários e terapeutas dividiram espaço com empresas psicodélicas e filantropos que patrocinaram o evento”.

“No final das contas, uma experiência única para mim, em que fui lembrada de que é melhor participar da conversa do que evitá-la; todas as grandes empresas se fazem com pessoas reais com quem se pode entrar em contato no nível humano, aprender com elas e possivelmente influenciá-las. Em todo desafio há oportunidade para crescimento.”

Para saber mais sobre a história e novos desenvolvimentos da ciência nessa área, inclusive no Brasil, procure meu livro “Psiconautas – Viagens com a Ciência Psicodélica Brasileira” (https:/www.fosforoeditora.com.br/catalogo/psiconautas-marcelo-leite/)

Este artigo foi publicado originalmente pela Folha de São Paulo, 6.jun.2022.

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